
Martin Scorsese é mais do que um reconhecido diretor de filmes de gângsters, traz a cada novo trabalho uma inquietação sobre como a sociedade funciona que provoca e às vezes causa calafrios. Neste “Ilha do Medo” (Shutter Island, 2010), um hospício esconde temores sobre a América feliz dos anos 50, que é melhor manter abafado, se você não quiser ficar louco. O policial, vivido por Leonard DiCaprio, chega ao tal sanatório para investigar o misterioso desaparecimento de uma paciente (Emily Mortimer), e suspeita que os médicos usam os doentes como cobaias de experiências terríveis. Pior, o mundo fica mais sombrio quando ele descobre que um dos diretores do hospício pode ser um médico nazista, que, olha só, pode estar sendo financiado pelo próprio governo americano.
É um filme apavorante. Scorsese não nos deixa com nenhuma pista segura a seguir. E o hospício vira uma sala de espelhos, onde podemos detectar fantasmas de todo tipo.
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Hamilton Rosa Jr. - Jornalista e Crítico de Cinema, Filmes Nacionais e Estrangeiros, DVDs, Blu-Ray, HD-TV, Entretenimento, Cults, Preview, Estréias, Mostra, Festival.
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Digo para minha filha que acaba de estrear na praça, o filme “Lembranças”, o novo do Robert Pattinson. Ela levanta os ombros fazendo pouco caso e diz que o Robert já era. “É bonito, mais é muito branquelo e tem cara de louco!”. Ela e as amigas estão ligadas agora no fenômeno Taylor Lautner (O Lobisomem de “Lua Nova”).
Hum…
Ela me diz que o Taylor tem uma cor mais sadia e um look arrumadinho, de homem que parece que está sempre perfumado.
É um charme papai!
Hum…
A aposta de Pattinson em “Lembranças” é se portar como James Dean. Ele imita o penteado, os trejeitos, o desespero rebelde. E eu imaginava que essa pose continuava infalível entre as meninas. Só que agora percebo que não é uma unanimidade.
Foi-se o tempo em que os heróis fraquejavam na dicção e demonstravam dúvida. O negócio agora é ser pontual, direto, de vez em quando ter um lado doce, quase feminino, mas manter a convicção no que faz, no que quer, que pode ser violenta.
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2012 (Fox)
Roland Emmerich mais uma vez destrói o mundo com volupia, e pelo resultado do filme nas bilheterias, o povo adora assistir de camarote. Aqui Emmerich chama nossa atenção: diz que os maias estão nos avisando há mais de quinhentos anos que a Terra tem prazo de validade, e que a natureza vai se voltar contra a gente, mas todo mundo continua fazendo xixi nas nossas matas e pouco se importando.
Quem acredita na profecia, é claro, é visto como paranóico ou fanático com tabuleta nas costas (Woody Harrelson aparece bem doidão no filme). Mas aí o bicho pega e não adianta rezar. Um das cenas mais sarcásticas do filme mostra o teto da capela sistina rachando, detalhe da pintura em que vemos o dedo do homem se encontrando com o dedo de Deus se separando e a igreja caindo na cabeça do papa.
Emmerich usa todo o artefato tecnológico para bancar o Cecil B. De Mille. Ele não abre apenas o mar, leva o estado da Califórnia inteiro para o ralo, cria erupções vulcânicas de fazer inveja a Pompéia, e não deixa nem mesmo o Brasil escapar da fúria ambiental. Deus aqui não é brasileiro.
No meio de tanta poeira aparece um herói. Ele é John Cusak, o americano médio que tenta proteger a família da extinção, mesmo que sua mulher e os filhos o tenham substituído por outro homem. À certa altura aparece uma Arca de Noé na história e aí, a questão primordial é ver quem deve ser salvo.
Hum, não há muito o que dizer, a não ser o fato de que são o mega empresários, aqueles mesmos que os ambientalistas acusam do tal xixi que mencionei acima, serem as únicas pessoas com passe livre para embarcar no navio. E, é claro, nosso herói pobretão, vai lutar para colocar os seus no mesmo barco.
Emmerich se põe do lado deste homem nobre e no final vem com aquele discursinho sobre a grande qualidade da boa democracia americana: seu poder de se auto-reformar. Mas depois de passar duas horas destruindo tudo com imenso prazer, só nos resta rir da ”esperança” final tirada à base de saca-rolhas. Vamos torcer para que o homem lá em cima não alugue esse 2012. Já pensou se dá idéia?
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Gosto todo ano de assistir ao Oscar porque ele é igualzinho ao circo da minha infância. Que saudades! Na minha infância, circo tinha domador e animais selvagens. No Oscar é quase igual, tem o domador (Hollywood, suas regras e rigidez) e uma fauna inteira se exibindo para ver quem tem o maior rugido.
Aliás, o maior rugido esse ano foi de uma leoa. E mais divertido ainda foi ver que a leoa tirou o Oscar do ex-marido.
No circo da minha infância também a gente via que as pessoas, inclusive você, corriam riscos de estar ali.
Hum, no Oscar alguém corre riscos?
Ah, tudo é tão ensaiado pra ninguém tropeçar, que o máximo que a gente pode torcer é pra alguém pagar um mico.
Como ver James Cameron visivelmente irritado com a imitação que Ben Stiller fez de um na’vi azulão. Ou ver Sandra Bullock dizer no discurso de agradecimento de Melhor Atriz (sim, acredite, ela ganhou) que continuava chateada com George Clooney por causa do dia em que ele a jogou na piscina.
Achou fútil? Eu também.
Mas o Oscar é esse picadeiro. E na noite de entrega ninguém está verdadeiramente interessado em falar de cinema.
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Filme terrível esse que marca a estréia do estilista Tom Ford. O herói do filme vê o brilho dos olhos do amante ficando opaco depois de um acidente de carro e não pode fazer nada. A beleza se esvai, o mundo a sua frente apodrece, e cabe a George aceitar ou não o que o Deus é capaz de fazer com a gente.
O diretor Ford, deve ser dito, vem de um mundo onde homens e mulheres são capazes de tudo para manter as aparências. Tudo tem que ser belo, ter equilíbrio, proporção.
E se quiséssemos mandar esse mundo às favas?
Ford, é claro, sabe que não pode. Seu filme tem uma fotografia, uma direção de arte, uma simetria nos enquadramentos das mais bonitas já vistas nos últimos tempos. Tão linda que até dói os olhos. Mas Ford é muito perspicaz em mostrar como essa beleza afeta seus personagens. Seu protagonista, George Falconer (um Colin Firth excepcional), é um professor de 52 anos, agüentando o peso da hipocrisia que o começo dos anos 60 lhe cobra.
Ele sequer pode ir ao funeral do namorado, porque entende o escândalo que iria causar.
Julianne Moore, a melhor amiga de Falconer, tenta levantar o astral do recém-viúvo, mas também é aquela mulher beirando os cinquenta que se carrega de cosméticos para se manter desejável.
E a humilhação dos dois forma uma atração mútua, porque percebemos como a natureza pode manipular nossas vidas e como o tempo, ou mesmo um acidente, pode acabar com o encanto humano.
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É o filme mais romântico de Oliver Stone. Conta a história de dois pombinhos apaixonados (Woody Harrelson e Juliette Lewis) que decidem levar sua paixão além dos limites. Não fosse o fato de que também são ignorantes, safados e acham que seus crimes são feitos gloriosos, e poderíamos dizer que a história de amor deles é tão linda quanto Casablanca.
Lembro-me que odiei o filme quando o vi a primeira vez. Não tanto pela violência explícita ou pela forma facilmente caricata que mostrava a imprensa, mas pelo reconhecimento de Oliver Stone de que havia graça nos crimes que o casalzinho perpetrava. Imagine uma festa de arremesso de tortas, onde em vez de doces, um explode o rosto do outro com disparos de escopeta? Stone parecia achar isso sui generis e, pior, parecia pedir para a gente aplaudir sua originalidade. Claro que fui do contra. Mas hoje tenho que reconhecer que o que é cômico neste “Assassinos Por Natureza” não é apenas cômico, e depois de rirmos de tanta ignorância, desamparo, vazio, estupidez e maldade idiota, a risada continua presa na garganta.
Outra coisa: se o pai deste rebento bizarro é Oliver Stone, a mãe é Tarantino (o roteiro foi escrito por Quentin). E essa união tem suas particularidades, entre as quais manter um diálogo estreito com o Sam Peckimpah de “Meu Ódio Será Tua Herança” e o Arthur Penn de “Bonnie & Clyde”.
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Nada melhor que começar a semana com a recusa a uma visão pronta. A recusa em ver o ser humano como sujeito passivo das manipulações habituais. A recusa em ver o próprio mundo como um edifício arrumadinho, pronto pra morar. Aliás, nada neste filme de David Cronenberg cheira a normalidade, nem mesmo a forma arrumar uma cópia. Como nunca foi lançado no Brasil em vídeo, DVD ou Blu-Ray, o espectador só pode importá-lo ou se aventurar no mercado clandestino.
Isso mesmo “eXistenZ” tem tudo a ver com submundo. A fotografia é escura, as ruas estão cinzas, os bueiros fétido, imundos, mas dizem que é o futuro. E neste futuro, a mocinha (Jennifer Jason Leigh) construiu um novo mundo (é uma famosa desenhista, arquiteta de videogames) e quer conectar Jude Law a essa nova dimensão. Acontece que o cara é virgem, nunca fez esse tipo de conexão; enquanto todo mundo tem um plug na lombar para conectar seu Pen Drive, o Jude não quer abrir seu orifício. Hum…
O cara resiste e ela o incita, o excita a conhecer o proibido. O senso de humor do filme é obsceno. É ficção científica, mas parece que a gente está assistindo um filme pornô. Há cenas de beijos libidinosos, lambidas e detalhes de orifícios mostrados em big close. Isso na primeira meia hora, depois o negócio fica muito sério, porque Cronenberg continua burilando as fronteiras de gênero e dissolve até nossa noção do que é real do virtual.
Alguém aí topa fazer a conexão?
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Te Amarei Para Sempre (Playarte)
Romantismo de primeira. O herói Eric Bana flutua no tempo como se estivesse num poema de Jean Cocteau e a esposa (Rachel McAdams) gostaria muito de pôr uma ancora no pé do fujão, mas não adianta. Aliás, o coitado do Bana não tem controle. Acorda hoje no futuro, e amanhã já foi para o passado. Reencontra a mãe que morreu, a esposa criancinha, reencontra até si mesmo mais jovem. Pode soar engraçado contando assim, mas a falta de sintonia com o tempo faz esse homem ganhar na loteria, e se sentir profundamente solitário porque não consegue desfrutar a fortuna com nenhum vínculo.
Ele se agarra a esposa, mas quando menos imagina, a mulher está abraçando o vazio.
O filme é baseado num best-seller de Audrey Niffenegger e tinha tudo para resvalar nos clichês do melodrama fácil.
Não cai. É uma produção inteligente e muito bem equilibrada. O roteiro de Bruce Joel Rubin (de O Campo dos Sonhos) investe no suspense e na fina ironia, as atuações de Eric Bana e Rachel McAdams é cheia de toques graciosos (eles parecem estar se divertindo muito em cena), a direção de Robert Schwentke é sóbria.
E há momentos impagáveis, como a sequência do casamento; o herói jovem se de desmaterializa na hora do “SIM”, mas ele mais velho aparece para salvar a cerimônia, aí este também desaparece, e vários Erics Banas de diversos tempos continuam aparecendo para não deixar a noiva pagar o mico.
De fato, é muito divertido, principalmente porque diz mais sobre a dificuldade de sintonia entre homens e mulheres, que tratados pretensamente mais sérios.
Os românticos de carteirinha vão adorar.
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Arquivado como: DVD on Fevereiro 25th, 2010 | Comente »

Vasculho os bandejões de ofertas de DVDs e encontro a carreira de Anthony Minghella vendida a preço de feira. “Cold Mountain” por R$ 19,90, “O Talentoso Ripley” por R$ 12,90, e “O Paciente Inglês”, aquele que ganhou 9 Oscars, por R$ 9,90. Nunca tive “Cold Mountain” em alta conta, ainda que reconheça que tem pelo menos meia dúzia de momentos que valem a pena, como a sequência da prece de Natalie Portman por todos os soldados mortos. Mas “O Paciente Inglês” é um filme muito digno, a beleza do vôo de Ralph Fiennes por aquele deserto que de repente vira o corpo nu de Kristin Scott Thomas é um grande momento de cinema, assim como “O Talentoso Ripley” é sem dúvida, o filme que mostra como Minghella podia ir longe como cineasta.
Vejo que ele ainda tinha muita lenha para queimar, não tivesse morrido ao acaso por conta de complicações na mesa de cirurgia. E olhem só, isso já faz três anos, e projetos que começaram nas suas mãos ainda estão por aí: como o musical “Nine”, que ele escreveu para ser uma parceria com sua esposa, a coreógrafa Carolyn Choa, e “O Leitor”, que estava em pré-produção quando ocorreu a fatalidade.
Tá certo que “Nine” deixa muito a desejar e “O Leitor” deve muito de sua força a atuação de Kate Winslet, mas fico imaginando o que seria destes dois filmes nas mãos de Minghella. A cabeça de Minghella fermentava de idéias e lembro-me de testemunhar essa energia vibrando numa entrevista com ele em São Paulo em 1999. Revi esses três filmes nos últimos dias e percebo agora uma obsessão do diretor por investigar as fraquezas humanas, as derrotas sociais. Em “O Paciente Inglês” havia a Guerra e o fracasso da única esperança humana, o amor; em “O Talentoso Ripley” as falsas aparências do american way of life conduziam Matt Damon a um destino sombrio, e em “Cold Mountain”, cada membro da sociedade parecia ter seu próprio código de fracasso. E aí a questão passava a ser meio que investigativa: dentro do grupo, quais tipos de derrotas são aceitáveis? Como tratar aqueles que fracassam? Que regras do fracasso vão proteger o status da subcultura e de seus membros?
A ambição desmedida de Minghella era instigante até quando errava.
Clique aqui e leia a entrevista que fiz com Anthony Minghella.
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Jogos de olhar na tela este fim-de-semana: Tem um olhar incisivo para a guerra (O Mensageiro) para a juventude inglesa (Educação), para o americano comum (Um Homem Sério) e para o Além (Um Olhar do Paraíso).
Clique aqui para ler sobre “Educação”; clique aqui para ler sobre “O Mensageiro”; e aqui para ver o vídeo-comentário de “Um Olhar do Paraíso”.
Role a página para baixo para ler sobre o novo dos irmãos Coen, “Um Homem Sério”.
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