As Dicas de DVD da semana

Senhores do Crime, Jogos do Poder e Meu Monstro de Estimação já chegaram às locadoras

Senhores do Crime (PlayArte)
Cronenberg faz um filme sobre mafiosos aqui que dá de dez no badalado “O Gângsterâ€, de Ridley Scott. A irmandade criminal russa Vory v Zakone está no centro da ação e o pivô das disputas é um bebezinho. A enfermeira Naomi Watts - meu Deus do céu, Cronenberg colocou a lourinha de uniforme branco… -  não sabe o que fazer quando a mãe da criança morre e vai pedir conselho para um influente imigrante russo (Armin Mueller Stahl), sem saber que a mulher morta foi executada pelo cara e que ainda por cima ele é o chefão da máfia.
Ele põe seu motorista, Viggo Mortensen, na verdade um matador, para ficar de olho na moça e descobre que a enfermeira ficou com o diário de sua vítima. Ah, nos escritos se encontra detalhes para incriminar toda a organização.
O filme é seco, curto, mas é extremamente rico. Em pouco mais de 90 minutos, Cronenberg infiltra o espectador dentro de uma organização complexa, cuja história de seus integrantes pode ser lida pelas tatuagens que eles ostentam no corpo.
Mortensen passa pelas diversas gradações dentro da Máfia, e vai recebendo inclusões de marcas pelo corpo. E surge uma relação de gestos e olhares dele para a enfermeira, de intenções bem ambíguas. Mortensen concorreu ao Oscar pelo papel e realmente está assustador. E o filme tem uma seqüência de luta dentro de uma sauna. O ambiente é escorregadio, cheio de quinas e os assassinos voam para cima da vítima com lâminas brilhantes e a cada retalhar de garganta, a cada poça de sangue, Cronenberg tira um efeito quase tridimensional.

Jogos do Poder (Universal)
Filme sarcástico. O espírito empreendedor do norte-americano típico ganha o rosto de Tom Hanks, os fartos seios de Julia Roberts e a pança de Philip Seymour Hoffman. O Charlie Wilson do título original de fato existiu. O cara era um senador democrata nos anos 80 com talento para fazer lobby até com um republicano ferrenho e Tom Hanks o vive com uma malícia adequada.
No enredo, temos Charlie Wilson como o safado que adora festas e que vira uma águia perspicaz quando entra mulher bonita no meio da algazarra. E quem dá uma piscadela para ele aqui é ninguém menos que Julia Roberts. Julia faz a socialite anti-comunista disposta a convencer Charlie a arrecadar donativos para uma ofensiva no Afeganistão, país invadido pelos russos.
Dizem que por trás de grandes idéias sempre têm pitaco de grandes mulheres, e assim que a moça percebe como a cabeça de Charlie funciona, ela se solta para ele numa casa de banho. Leva o cara às alturas e chega mesmo a ser obscena na forma como discorre sobre armas e geo-política, comparando foguetes em riste com o vigor de Charlie Wilson para os negócios. Hum… gostaria que Julia aparecesse mais em “Jogos do Poderâ€, para falar mais deste tipo de política. Mas o diretor Mike Nichols prefere falar de outro tipo. A diversão aqui fica pelas ironias do americano bem intencionado, que mal sabe que está financiando Osama Bin Laden e a formação da Al Quaeda.

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Templo de Cinema em Paulínia

É igual a Basílica de Aparecida do Norte. Você nem precisa chegar no quarteirão, dá pra ver da estrada. Esse imponente edifício, que imita em sua arquitetura o Paternon, vai abrigar a partir de sábado o I Festival de Cinema de Paulínia. Como eu moro na vizinhança, fui ontem a Paulínia só para me ambientar, só para sentir a energia do local. A assessoria de imprensa me advertiu, disse que não haveria ninguém para abrir o prédio e me acompanhar, me monitorar. Mas era justamente disso que eu fugia. Quando você avisa que vai visitar a casa de alguém, a arrumação esconde a verdadeira essência que habita normalmente o pedaço.
Mas a construção dessa sala multiuso – que é teatro, mas também é cinema - desafia classificações. Venta muito na região descampada onde esse empreendimento foi construído e esse vento, tenho que admitir, me assombrou. E depois me fez rir. Parecia que eu estava naqueles épicos gregos. Será que os cinéfilos vão se deslocar de outras cidades para ver esse Festival? Penso que deveriam.
Ele revela muito do que é o Brasil. Revela muito das apaixonantes contradições que abarcam o cinema.
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Cronenberg mostrou que minha TV a válvula podia me beijar; mas agora as HDTVs acabaram com essa festa

Gente, o horror moderno de “Videodrome†virou horror retrô! Sim, em 1983, não havia nada mais “muderno” e pervertido que imaginar uma relação de interatividade carnal entre um homem e seu objeto de lazer doméstico favorito. Era obsceno, escuro, selvagem e tinha chiado. Agora com as TVs de alta definição, o negócio ficou clean, os gemidos ganharam dolby Surround e a Debbie Harry ficou com a cara da Barbie!
É um disparate. A imagem é tão limpa que Debbie nem parece mulher de verdade. Parece que aplicaram botox nela e também na tela da TV. Botox digital!
Para gente indecente como eu, o negócio perdeu a graça. E não adianta me mostrarem as maravilhas do plasma ou da LCD. Tenho espaço em casa para guardar minha TV a válvula com carinho, e vou resistir até que me mostrem a Debbie Harry do jeito que veio ao mundo. Com as marcas de expressões, as estrias e todos aqueles detalhes que me fazem amar as mulheres.
No filme de David Cronenberg aparece um cientista dizendo que a emissão de raios catódicos do tubo da TV está modificando a natureza comportamental do homem. O horror vem do tubo. Hum… fiz as contas, e cheguei a conclusão que sou bombardeado pelos tais raios há mais de 40 anos, o que significa que cientistas qualquer dia, podem bater na minha porta e me isolar como uma espécime a ser estudada.
Opa, você entrou em pânico porque também está contaminado?
Ah, não se preocupe. Faça como eu, continue circulando, livre, por toda parte, contaminando as pessoas com o vírus do tubo e fazendo propaganda de filmes perniciosos como “Videodromeâ€.
O Cronenberg merece. E olha que a cópia em DVD de “Videodrome†não chegou ainda no bacião, mas já tá sendo vendida por preços convidativos. No Submarino achei o filme por R$ 26,90; na 2001, por R$ 24,90 e na Americanas, por R$ 21,90.
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O desabafo do videolocador

Ele tinha duas videolocadoras em Campinas, mas chegou a tal condição de inadimplência logo depois das festas de fim de ano que a saída foi vender uma para sair do vermelho. Trabalha no ramo de videolocação há mais de dez anos, mas acredita que o mercado, como o conhecemos hoje, só vai acabar por culpa da política de comercialização das distribuidoras. “Não adianta ter ponto bom, ser criativo com as promoções, nem administrar a loja com um excelente programa de gestão; veja a política de preço que as produtoras praticam. Eles não estão nem aí. Aliás, estão sim, porque estão apressando o quebra-quebra de todo mundo, e usam a desculpa da pirataria para  esconder a falta de habilidade deles em lidar com a genteâ€.
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Estréia: Wall-E

Wall-E, um robô solitário como Robinson Crusoé, e seu improvável amigo Sexta-FeiraEm “Toy Story”, eles nos levaram a desvendar o quanto de vida existe num quarto de crianças, em “Vida de Inseto†puseram uma lente de aumento num formigueiro, em “Monstros S/A” liquidaram com essa história de bicho papão e em “Ratatouille” com esse papo de que arte culinária boa só é feita por gente grande. Agora com Wall-E os desenhistas da Pixar partiram para sua primeira odisséia espacial e acompanham a história de um robô, aparentemente o único sobrevivente na Terra, em sua luta contra a solidão. Sim, a animação resgata a história do homem só, de um Robinson Crusoé de lata que encontra até um Sexta-Feira, vivido por uma barata limpinha e bem civilizada.
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Estréia: Onde Andará Dulce Veiga?

Cinema americano não precisa pegar a fila para garantir sua entrada nas telas brasileiras, mas filme nacional precisa de senha. E o número de Guilherme de Almeida Prado foi cantado hoje e por isso seu filme, “Onde Andará Dulce Veiga?†marca presença nas telas das capitais de São Paulo e Rio. O filme é uma festa para o cinéfilo que deseja reencontrar musas do cinema tupiniquim. As poderosas que pedem passagem são Matilde Mastrangi, Imara Reis, Christiane Torloni, Maitê Proença e Julia Lemmertz. Ah, e tem Carolina Dieckmann se entregando a personagem de uma cantora bagaceira e sem medo de exibir os balangandãs.
Almeida Prado marcou o cinema dos anos 80 com o clássico “A Dama do Cine Shangaiâ€. É o sujeito inquieto e inventivo que aprendeu o ofício na Boca do Lixo e construiu um mundo refinado, iluminado por néon, usando apenas as sucatas que o Ferro-Velho do cinema nacional oferecia. Mas o Ferro-Velho de Prado sempre teve magia, personalidade. E não é diferente o universo que ele decidiu pesquisar neste novo filme: composto de um mix do livro “Onde Andará Lyris Castellani?†com o inacabado “Dulce Veigaâ€, ambos do escritor Caio Fernando Abreu.
A doidona Carolina Dieckmann tenta botar o jornalista Caio Almeida (Eriberto Leão) na atmosfera lúgubre da banda de rock Vaginas Dentadas, e é um sufoco sair dali sem levar a tal dentada. Mas ele volta pra redação com outra história. Descobre que a menina é filha da cantora desaparecida Dulce Veiga (Maitê Proença) e ele sai pra noite com outra pauta:  procurar algum rastro desta mulher misteriosa. Assim o repórter se depara com as musas descritas acima, não por acaso, estrelas dos cinco longas anteriores de Prado: Mastrangi foi protagonista de “As Taras de Todos Nós”; Imara, de “Flor do Desejo”; Maitê, de “A Dama do Cine Shangai”; Christiane, de “Perfume de Gardênia”; e Julia, de “A Hora Mágica”.
O filme não agradou parte da crítica. Reclamam da insistência do diretor em repisar signos de seus outros trabalhos, da atuação pouco convincente dos atores e de um certo formalismo que acaba caindo no vazio. Será mesmo?
Há um misterioso encanto aqui, a tentativa do artista de buscar alguma coisa que ele construiu e depois perdeu. E ele faz isso com urgência. Empilha todas as idéias visuais de uma vida, como se essa fosse sua última chance de rodar um filme e de chegar ao público.
Com cineasta brasileiro digno é assim.

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As Dicas de DVD da Semana

Tem dois vencedores do Oscar chegando às videlocadoras essa semana e também um filme de monstro, onde o horror de não vê-lo ou de não entendê-lo promove os maiores estragos. Acompanhe:
Onde os Fracos Não Têm Vez, Cloverfield - O Monstro e Juno, os lançamentos que estão chegando nas locadoras nesta semana

Onde os Fracos Não Têm Vez (Paramount)
Não adianta se refugiar da América urbana na América caipira, você encontra gente violenta e estranha da mesma forma. Tommy Lee Jones é o delegado que se orgulha de lembrar que, na época de seus pais, podia-se ser xerife sem dar um tiro por toda a vida. Mas agora o mundo ficou esquisito e só resta ao povão se armar até os dentes. Parece reaça o princípio? Hum, o filme é tão seco quanto o deserto texano. Na imagem mais poderosa deste “Fracos†um cão ferido se esvai em sangue, mas mesmo assim continua a fugir pelas pradarias do horror que os homens promovem. O caipira ruim de pontaria Josh Brolin também está fugindo com uma sacola de dinheiro que achou numa briga de traficantes. E o cara que vem atrás dele, o matador Anton Chiburgh (Javier Bardem), é o pior pesadelo que o cinema criou desde Hannibal Lecter. A ação é simples assim, mas o efeito cinematográfico que os irmãos Joel e Ethan Coen extraem desta caçada, lembra os melhores momentos do cinema de Sam Peckimpah. O filme quase não tem diálogos. Desliza, ganhando intensidade, à medida que as personagens se encaminham - compulsivamente como num sonho - para a auto-aniquilação. Até os ruídos são importantes. O vento soprando no deserto, o rangido de uma porta num motel vagabundo de beira da estrada, o zumbido de moscas sobre os cadáveres e o chiado de um radinho que indica a presença de Anton chegando.
O filme ganhou o Oscar de melhor realização de 2007, direção (para os Coen), roteiro adaptado (de um conto de Cormac McCarthy) e ator coadjuvante (para Javier) e realmente é um tour de force. Verdade que muita gente se decepciona com o final anti-climático que os Coen reservam. Mas está perfeitamente dentro do contexto. Diante de criminosos que desafiam classificações como Anton Chigurh, o delegado revela um pavor, que nenhum dos xerifes que ele idealiza demonstraram. Então que saída resta? Os Coen deixam o espectador na encruzilhada, sem caminhos a definir.

Cloverfield – O Monstro (Paramount)
O monstro desse filme é um estraga prazeres. Os heróis estão numa festa transada, rodeado de mulheres e de repente o bichão resolve atacar Nova York. E o irônico é que a criatura é imensa, mas ninguém consegue filmá-lo. Eta pessoal amador!
E o suspense então: há sempre a sensação de que a qualquer momento, como num vídeo “caseiroâ€, a handycam vai cair no chão e o filme vai acabar.
Ah, tem gente que vai querer dar um tiro na TV. Mas é engraçado, porque eu achei divertido. E o realizador Matt Reeves é bom. Sustenta a situação como um equilibrista na corda bamba. As personagens salientam constantemente a importância de gravar aqueles instantes de total destruição. Há máquinas digitais e celulares em punho por todo lado, porque hoje em dia as pessoas não fogem só: tiram fotografias para mostrar aos amigos, mandam MMS ao mesmo tempo que as coisas acontecem. Existe um desespero generalizado por mostrar o que estão vivendo, que soa absolutamente insólito, mas verdadeiro.
Cloverfield é isso. Um filme cru, onde os personagens sequer têm tempo de mostrar alguma dimensão psicológica. Aliás, a produção nem traz atores com potencial para tanto. A história é rala, primária. Mas nada disso depõe contra o sentido de angústia e aflição que concretiza na tela. O filme atinge o alvo que pretende.
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Onde encontro os filmes de Bob Fosse no Brasil?

Chamem o síndico! No meio da apresentação musical de minha filha na escola semana passada entrou um grupo de tap dancing que abafou ao ritmo da clássica “All That Jazzâ€. E a professora inoportuna entrou para dizer que aquele era um famoso número musical de “Catsâ€!  Torci para que ela tropeçasse na cortina. A música “All That Jazz†foi composta para “Chicago†e a coreografia que eles fizeram tinha aquela síncope rítmica que o grande Bob Fosse criou para a dança.
É engraçado, a morte faz a gente esquecer um cara, mas esquecer de uma escola, de um estilo já revela uma certa displicência. Bob Fosse morreu em 1987 e o cinema e, sobretudo, a Broadway devem muito a este sujeito. Aliás, quem ganhou o Oscar por “Chicago†em 2002 não foi ninguém que estava no palco. Foi o Fosse, que mesmo morto, estava lá divulgando sua arte. E ninguém se deu conta disso na época ou agora. Procure na Web para ver, não há uma linha a respeito.
Bob Fosse foi o sujeito mais importante do musical nos últimos 50 anos. No cinema fez meia dúzia de filmes, mas colocou a energia de uma hidrelétrica neles. Começou mexendo com aquela coreaografia de “Kiss Me Kate†em 1953 e tudo o que foi feito em termos musicais dos anos 70 pra cá, teve influência dele.
Pesquiso nas lojas e na web o que existe disponível em DVD do Bob e começo a dar razão para a professora da escola da minha filha. Descubro que “Charity, Meu Amor†saiu aqui pela Universal, mas não encontro o filme disponível em lugar nenhum. Achei “All That Jazz/ O Show Deve Continuar†para venda na web, mas em loja física foi um custo encontrá-lo. E a obra-prima de Fosse, “Cabaretâ€, necas de pitibiriba. Só existe disponível importada.
Bob Fosse merecia mais consideração. Sim foi ele que tirou a virgindade dos musicais de Hollywood. Não tinha espaço para donzelinha em seus filmes. Você pode até afirmar que prostitutas e cafetões podiam ser vistos nos musicais antigos, mas eles não eram sexualizados. Fosse chutou a porta dos estúdios e colocou uma Shirley MacLaine bem putona em “Charity, Meu Amorâ€.
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Bicho papão para a nova geração!

Jigsaw, o popular serial killer da série Jogos MortaisEsse homem com a cabeça na bandeja é o bicho papão que a garotada adora acompanhar na série “Jogos Mortaisâ€. E eu nunca dei muita bola pro cara, mas chego no estúdio da TV para gravar e ouço o câmera e a apresentadora conversando sobre Jigsaw. Vou a padaria e vejo a atendente narrando com requintes e detalhes mais um crime do babão. Até o Juninho, meu primo de dez anos, é fascinado pelas estripulias do mané. Se cuida Adriane Galisteu, porque mesmo com a cabeça cortada, taí uma verdadeira celebridade!
Como diz a moçada: Jigsaw é fera, Jigsaw é massa!
E começo a pensar a ameaça que seria se ele tentasse as eleições para prefeitura de Sampa, porque até morto Jigsaw dança o rock and roll!
Sim, em “Jogos Mortais 3†relaram  a mão no homem no final e ele não pulou para dar aquele susto-clichê.
Bom, se você tem estômago fraco, melhor parar de ler por aqui, porque o que os realizadores da série querem provar no episódio 4, é que mesmo abrindo a barriga do maldito e tirando toda aquela gelatina, mesmo serrando a cabeça do morto, e balançando todo aquele sagu, o homem dá um jeito de se comunicar com seu maior desafeto, o comandante Rigg (Lyriq Bent), o único sujeito que escapou daqueles mórbidos jogos.
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Eles não são críticos, mas têm poder de decisão para detonar a bilheteria de qualquer filme

Momentos de decisão: o estudante Jorge Crispim, na bilheteria do Cinemark na sexta; o dentista Dagoberto Faria no Cinesystem no domingo

A distribuidora pode fazer uma campanha maciça, a crítica pode glorificar, mas isso não é certeza de sucesso de bilheteria para ninguém. Veja o comparativo nas bilheterias do que  aconteceu com “Speed Racer†e com “O Homem de Ferroâ€. O primeiro tinha uma máquina de dinheiro lustrando o Mach 5, mas não decolou; enquanto a carreira do segundo parecia incerta, sobretudo pela presença de risco de Robert Downey como protagonista, só que o filme caiu de tal forma na simpatia do público que se tornou um fenômeno de renda (é o maior sucesso do ano).
Intrigado com esse comportamento bati ponto no lobby de três complexos de cinemas bem freqüentados, como o Arteplex do Shopping Frei Caneca, o Cinemark do Shopping Eldorado e o Cinesystem, de Campinas, para flagrar como essa turminha danada examina e decide o que vai fazer com seu dinheiro. O estudante Jorge Crispim, por exemplo, se amarra em filmes de suspense, mas é exigente. Não gostou de “O Sonho de Cassandra†e na sexta estava no dilema entre ver “Fim dos Tempos†e “Antes que o Diabo Saiba que Você está Mortoâ€. “Esse Shyamalan fez “O Sexto Sentido†e “Sinaisâ€, mas depois não fez nada que prestaâ€. Mesmo com as críticas negativas, ele se interessou pela trama e resolveu comprar o ingresso e se arriscar.
Já o dentista Dagoberto Faria dava uma bela examinada nos cartazes antes de comprar o ingresso. Adora seriados antigos e chegou ao Cinesystem no domingo programado para ver o remake de “Agente 86â€. “Gosto do Steve Carell mas duvido que chegue perto do originalâ€. Diante do impasse, mudou de direção. Acabou entrando na sessão de “Efeito Dominóâ€.
Fiquei tão entusiasmado com a seletividade do publicão que inventei  até um formulário com oito questões para seguir com minha pesquisa de campo. Olha só:
1) Comecei a perguntar para as pessoas se o filme já está escolhido antes de chegar à bilheteira ou se a decisão era tomada in loco, ou seja, vendo os títulos disponíveis, a sua duração e os horários das sessões.
2) Perguntei o que sabem da história do filme. Do gênero (se é ação, drama, etc)? E se conhecem os atores/ diretores que participam?
3) Perguntei se recolhem previamente informações sobre os filmes (nos jornais, na web)? Se levam em consideração os prêmios que eles receberam? O sucesso comercial no país de origem? E as boas ou más opiniões dos críticos de cinema e dos amigos(as) ou se isso varia de filme para filme?
4) Se quando vão com um grupo de amigos, o que acaba por ser mais importante para chegar a decisão? O gênero? Os atores?
5) Em torno desse convívio, perguntei se já aconteceu de verem filmes que não estavam em seus planos e acabaram por se surpreender (positiva ou negativamente)?
6) Perguntei se achavam condizente o preço dos bilhetes (e das pipocas, do parque de estacionamento, etc.) e o que acham das condições de projeção.
7) E também que fatores consideram importantes para não verem um determinado filme.
8) Ah, e não poderia esquecer de perguntar se eles freqüentam regularmente aos cinemas ou se são atraídos por safras, como a época do Oscar (janeiro, fevereiro), na época dos blockbusters (de maio a julho), ou nas férias?

Ou seja, não botei o macacão, mas eu parecia aquele chatonildo que aborda pessoas com a prancheta de pesquisa na hora mais imprópria. Recebi respostas atravessadas, fui ignorado por um monte de gente mal educada e também por pessoas com boa vontade e paciência.
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