Ninguém esquece dos Amores da Casa de Tolerância

A atmosfera neste L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância
é de final da Belle Époque. Entramos no dia a dia das mocinhas tristes e deprimidas que dão corpo a um requintado bordel parisiense. Madeleine, Samira, Julie, Clotilde, Léa e Pauline são lideradas pela sua Madame, que gere a casa com elegância e um conjunto de regras rigorosas. Pauline é a última a entrar no espaço em decadência e a única que de lá sai, mas há um contrasenso nessa saída. A ânsia pela liberdade se esvazia, porque quando a prostituta consegue largar a vida, sente-se um irônico saudosismo no ar.
Que coisa inquietante pode ser o coração de uma puta. Elas se abrem pra tudo e a câmera de Betrand Bonello desliza sobre os corpos, criando uma atmosfera esmaltada de sonho a cena, sem deixar de expor a crueldade mercantil do jogo. As jovens mulheres são servas da madame, são servas dos desejos mais obscenos. Mas e daí? Existe tesão e satisfação no rosto das meninas. Há o êxtase de correr riscos. É tudo ritualizado e muito chique. Começando pelos preparativos, o esmero na sessão de maquiagem, o carinho no ajuste da lingerie, a entrada imponente em cena.
Não há problema em voltar bombardeadas. Afinal, elas participam de um clube de cavalheiros, gente que é capaz de assinar um sorriso a faca no rosto de uma bela mocinha e ficar por isso mesmo.
O sabor caústico do filme vem da violência embutida em um mundo que se diz civilizado, e que Bonello mostra que nunca avança. Seja no começo dos 1900 ou em 2012, os anseios, os afetos e a luta pelo poder permanecem os mesmos. Para ilustrar sua visão, está lá, as melindrosas dançando ao som de da música pop da nossa era. A trilha sonora inclui Nights in White Satin, na versão do Moody Blues, e Bad Girls, cantada por Lee Moses.
Tanto em O Pornógrafo como em Tiresia, Bonello mostrou que podia ir longe com o sentido de erótico, mas é aqui que ele alcança o lado escuro deixado de fora das velhas tramas clichês. Quem ama o cinema não pode deixar de visitar essa casa.
Hamilton Rosa Jr. – Jornalista e Crítico de Cinema, Filmes Nacionais e Estrangeiros, DVDs, Blu-Ray, HD-TV, Entretenimento, Cults, Preview, Estréias, Mostra, Festival.

















































