Millennium traz a síntese do cinema de David Fincher

Não há dúvida que esse “Millennium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres”, de David Fincher, emociona, mas essa emoção não é necessariamente um prazer. A trama, baseada no best-seller de Stieg Larsson, trata de hipocrisia, sexo e devassidão, e o desafio numa adaptação dessa história é justamente escapar do sensacionalismo fácil que permeia a superfície. Nas entrelinhas as engrenagens sociais giram e há algo de extremamente venenoso acontecendo, que nem o herói jornalista Mikael Blomkvist, que começa a história amarrado num escândalo de corrupção, e nem a jovem hacker Lisbeth Salander, que fatura uns trocos investigando a classe empresarial, conseguem lidar.  A qualidade do livro e também da versão sueca do filme reside em tornar as circunstâncias cada vez mais angustiantes.
A versão de Fincher passa a régua nessa angústia, e torna a história mais pop, a começar pelos créditos na abertura desfilando como se estivéssemos vendo um clipe sado-maso encomendado pela MTV. Aí entra em cena um Daniel Craig carrancudo se mordendo do frio local e uma Lisbeth com um look plagiado de Edward Mãos de Tesoura. Bem que Rooney Mara se esforça para mostrar que há vida por trás da maquiagem pesada, mas é energia demais para um resultado discutível. Aliás, a atenção concentrada em Mara é tamanha, que Fincher esquece o resto do elenco feminino: Robin Wright e Joely Richardson estão lá mais como adereços de cena. Até parece que quem verdadeiramente não ama as mulheres é o diretor.
Finalmente passamos pela ênfase sobre a elogiada palheta claro-escura da fotografia. Os exteriores brancos – cenas de neve caindo o tempo todo – se intercalando com os interiores escuros onde o mal impera à base de facadas, assassinatos, estupro, são o mais puro puro e deslavado clichê.
E tem mais: observe como toda a violência parece armada para causar sensação.
Faz parte do cinema de Fincher. Como tudo que cria: tem “clima”, é bonito de ver e está na moda.

Hamilton Rosa Jr. – Jornalista e Crítico de Cinema, Filmes Nacionais e Estrangeiros, DVDs, Blu-Ray, HD-TV, Entretenimento, Cults, Preview, Estréias, Mostra, Festival.

A Separação

Em cena apenas três personagens. Uma mulher, o marido e um juiz. A mulher quer o divórcio, o marido não aceita. E o juiz nega a separação, alegando que não há comum acordo. Estão entre quatro paredes, mas a problemática é tão ampla que reverbera além. Existe uma criança entre eles, a filha de onze anos, e também uma série de sonhos que forma sendo sufocados no desenrolar do casamento. A mulher quer sair do país e quer que o marido e a filha sigam junto. Ele se recusa a ir porque tem de cuidar do pai, que sofre de Alzheimer. Diante do impasse, ela deixa a casa em que vivem. Mas a filha decide ficar com o pai, porque acredita que sua mãe vá regressar.
O drama é tão seco aqui que causa uma espécie de choque: em geral não ouvimos falas tão amorais no cinema como neste filme, e o mais surpreendente é que a discussão ocorre dentro de uma sociedade islâmica. A Separação é um filme iraniano que tem mais coragem para falar das liberdades individuais e da natureza da justiça do que os atuais filmes ocidentais.

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Os Descendentes: fácil de ver e fácil de esquecer

No cinema americano atual, sem dúvida, Alexander Payne é dos poucos que pensam num espectador adulto. Em parte, e porque a escolha é cada vez mais reduzida, isso explica o sucesso que o filme tem tido nos mecanismos tradicionais de Hollywood, e por certo continuará a ter (pode dizer o mesmo de “Moneyball”, filme que sob determinada perspectiva é bastante parecido com este de Payne). Não tem truques, não acelera, não tem luzinhas piscando para chamar a atenção. Merece respeito por fugir da tradição. Mas não todo esse barulho em torno, como se estivéssemos diante de um momento capital do cinema.
Estamos longe disso. Os Descendentes não corre riscos, nem traz qualquer grau de ambigüidade. A mulher do personagem de George Clooney sofre um acidente, fica em coma, e o cara fica entontecido frente a necessidade de administrar um lar e aceitar as convenções. Reúne as filhas, visita os familiares e os amigos, compenetra-se no seu papel de pai e de marido, tem que lidar com um patrimônio familiar que, vem passando de geração em geração – e por fim se toca que é herdeiro de uma tradição do qual não tem certeza se quer escapar.
O filme é “bem escrito”, dos diálogos à organização narrativa, tem uma fluidez e uma elegância que dão tanto prazer como têm tendência a frustrar (sabe aquela velha máxima pasoliniana que diz que um filme deve “destruir o argumento” ? Em “Os Descendentes” não há sequer um plano que se “revolte” contra o argumento).
De fato, temos dois, três momentos em que o filme vai além da escrita, quer dizer, onde se passa alguma coisa de ordem transcendente. São, por ordem: a corrida desesperada de Clooney (em “tempo real”) depois de saber da infidelidade da mulher (que está em coma); o mergulho da filha mais velha depois de saber que a mãe vai morrer; e o plano final, sobre o qual o pai e as filhas em frente à televisão, encontram uma maneira de se recompor se alienando na telinha. E é isso.
Há uma decência, quase uma ternura – no modo como Payne é justo com todos e, dependendo do ponto de vista, você pode achar isso admirável ou inaceitável. Cinema de diplomata. Não agride nenhum grupo, nunca é desagradável e também não produz nenhum arroubo. É fácil de ver e fácil de esquecer.

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Ninguém escapa dos Amores da Casa de Tolerância

A atmosfera neste L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância
é de final da Belle Époque. Entramos no dia a dia das mocinhas tristes e deprimidas que dão corpo a um requintado bordel parisiense. Madeleine, Samira, Julie, Clotilde, Léa e Pauline são lideradas pela sua Madame, que gere a casa com elegância e um conjunto de regras rigorosas. Pauline é a última a entrar no espaço em decadência e a única que de lá sai, mas há um contrasenso nessa saída. A ânsia pela liberdade se esvazia, porque quando a prostituta consegue largar a vida, sente-se um irônico saudosismo no ar.
Que coisa inquietante pode ser o coração de uma puta. Elas se abrem pra tudo e a câmera de Betrand Bonello desliza sobre os corpos, criando uma atmosfera esmaltada de sonho a cena, sem deixar de expor a crueldade mercantil do jogo. As jovens mulheres são servas da madame, são servas dos desejos mais obscenos. Mas e daí? Existe tesão e satisfação no rosto das meninas. Há o êxtase de correr riscos. É tudo ritualizado e muito chique. Começando pelos preparativos, o esmero na sessão de maquiagem, o carinho no ajuste da lingerie, a entrada imponente em cena.
Não há problema em voltar bombardeadas. Afinal, elas participam de um clube de cavalheiros, gente que é capaz de assinar um sorriso a faca no rosto de uma bela mocinha e ficar por isso mesmo.
O sabor caústico do filme vem da violência embutida em um mundo que se diz civilizado, e que Bonello mostra que nunca avança. Seja no começo dos 1900 ou em 2012, os anseios, os afetos e a luta pelo poder permanecem os mesmos. Para ilustrar sua visão, está lá, as melindrosas dançando ao som de da música pop da nossa era. A trilha sonora inclui Nights in White Satin, na versão do Moody Blues, e Bad Girls, cantada por Lee Moses.
Tanto em O Pornógrafo como em Tiresia, Bonello mostrou que podia ir longe com o sentido de erótico, mas é aqui que ele alcança o lado escuro deixado de fora das velhas tramas clichês. Quem ama o cinema não pode deixar de visitar essa casa.

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Super 8 ou quando o prazer da aventura se revela no rolo de um negativo

Entre meados dos anos 70 e 80, Steven Spielberg e George Lucas despejaram o armário de brinquedos na frente da câmera e sem medo de serem taxados de infantis, recolocaram o cinema nos trilhos do imaginário e da fantasia, de onde tendia a descarrilhar.
30 anos depois, esse cinema infantil que Spielberg e Lucas resgataram, geraram tantos subprodutos e foram tão mal anabolizados pela era digital, que o trenzinho novamente balança.
Não parece, portanto, gratuito da parte de J.J. Abrams começar Super 8 justamente com a imagem de um trem desgovernado.

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Cláudio Assis solta seus ratos em Paulínia

Depois de fazer a gente chupar a amarga manga, o diretor Cláudio Assis esquece a fruta e despeja uma horda de ratos sobre nós. Há os que vão amar e também os que vão odiar e sair correndo desse cinema de choque que “Febre do Rato” vem nos propor. Mas em meio ao grão de loucura, de poesia cândida e suja que dançam na tela, temos um dos filmes mais lúcidos feitos no cinema nacional nos últimos tempos.

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Mel Gibson, o castor e os fantoches

Quando se pensava que não havia mais saída para o ator Mel Gibson, eis que um novo Mel Gibson se reinventa neste irônico Um Novo Despertar (The Beaver). E se reinventa com uma outra voz, voz de um fantoche.
Mais do que estar num estado de profunda depressão, o personagem de Gibson, não consegue nem mesmo receber o apoio familiar, todo mundo parece ter desistido dele. Por isso é curioso ver o personagem literalmente à beira do precipício, pronto para se jogar quando ouve a voz do tal Castor. Aliás, quem fala quando o castor fala?
A questão pode parecer uma piada. Mas envolve mesmo um drama primordial, e primordialmente humano: quem sou eu para o outro? Ou ainda: que “eu” apresento, e edifico, na minha relação com o outro?
O negócio começa pequeno assim neste Um Novo Despertar e vai ganhando dimensões cada vez mais intrigantes. Provavelmente só um ator ou atriz conseguiria lidar com esta história do homem-com-um-fantoche-de-castor-na- mão. Por quê? Porque ela envolve a mais desarmante exposição do nosso eu interno e eu externo: você não sabe quem eu sou… e eu também não sei. Complicado, não? Sim, existe Mel Gibson, existe o personagem Walter Black, existe o Castor e existem muitos fantoches, com vozes de vários tipos, que talvez nem mesmo Jodie Foster como diretora consiga articular, ainda que pareça ciente disso. Vozes alegres, arrogantes, manipulativas, fracassadas, patéticas. Vozes sensíveis.
Simplificando, digamos que se trata de um dos filmes mais inclassificáveis e fascinantes do momento. Efeitos especiais para quê? Nenhum é tão complexo como pode ser um ator em frente a uma câmara.

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Splice, monstro em transe

Monstro doido esse de “Splice – A Nova Espécie”. Não tem aparência bem acabada, muda constantemente como um polimorfo. Lembra o Alien de Ridley Scott quando pula do tubo de ensaio, depois cresce, torna-se uma criancinha de olhos meigos que adora brincar de bonecas e quando vira uma adolescente, transformasse numa moça fogosa, louca pra seduzir e que abre as asas como uma fada. Bom essa moça tem rabo e na ponta dele chacoalha um ferrão mortífero. E o casal de cientistas (Adrien Brody e Sarah Polley) que gestaram a menina numa experiência genética inconseqüente, inicialmente são gentis o bastante para nos fazer acreditar que amam a “filha” de verdade e, depois, convincentes o bastante para nos mostrar como são capazes de matá-la. O filme, que sequer foi exibido nos cinemas brasileiros, é mais uma incrível demonstração da habilidade do diretor Vincenzo Natali de manipular as convenções do horror. Regras? Como em “Cubo”, o filme mais admirado do diretor, elas vão se modificando. Natali insufla a história de direções e algumas delas parecem propositalmente não levar a lugar algum, o que pode fazer os mais apressados acreditarem que se trata de uma falha. Mas a sensação genuína é de que estamos sendo acuados, virando presas de um labirinto. Para onde é seguro fugir deste minotauro criado pela ciência?

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Bicho papão bom ter que ser cinéfilo

A essa altura, nem é preciso dizer que os filmes da série “Pânico” são como episódios de “Scooby Doo”, porque eles não só matam nossas saudades. Como seus antecedentes, “Pânico 4″ tem tudo a ver com a Cartoon Network. Mas por um bom motivo: o filme é animado, engraçado, e tem um texto suficientemente bom para fazer com que sua porção comédia satisfaça mais do que os arrepios – repetitivos, e ainda assim eficientes – que ele é capaz de provocar.
O diretor Wes Craven e sua equipe reconhecem que seus reais concorrentes não são os projetos da série “Jogos Mortais” ou da série mais inócua ainda “Atividade Paranormal” – que consiste em dar sustos com baixíssimo orçamento e sem a capacidade de fazer graça de si mesmo, mas sim os filmes da própria série “Pânico”. Talvez o grande concorrente deste “Pânico 4” seja “Pânico 2″, porque foi naquele momento que Craven e seu roteirista Kevin Williamson derrubaram  as paredes do que sentiam como representação e mundo real. Sim, personagens e atores de repente começaram a brincar com suas máscaras e o negócio virou um carnaval de Veneza pop.
Mas o inusitado mesmo é que quem parecia orquestrar a balada era o assassino, um psicopata que por sinal se assumia cinéfilo!
O conceito é simples: o vilão testa os conhecimentos da vítima sobre o mundo do cinema. Não sabe responder quais foram as melhores continuações de um filme de horror?
Ah, então prepare-se para a punhalada!

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As Dicas de DVDs da semana – Edição 111

Atração Perigosa (Warner)
Ben Affleck pode não ser um grande ator, mas ele sabe que a grande arte da interpretação é calcada num variado jogo de máscaras. E o que é curioso tanto em seu primeiro filme como diretor (Medo da Verdade) como neste segundo, é perceber o prazer de Affleck em observar personagens imersos em fingimentos, mentiras e traições. Em “Medo da Verdade”, Casey Affleck investigava um crime numa comunidade e a população toda parecia compactuar de segredos ao qual só ele parecia alheio. Já neste “Atração Perigosa, o peão no jogo das aparências é uma funcionária de bancos vivida por Rebecca Hall (Vicky Cristina Barcelona)
Quando o banco é assaltado, ela é levada como refém pela quadrilha de mascarados e experimenta o horror da expectativa e do perigo, que aliás, de olhos vendados, pode vir de qualquer lado e a qualquer hora.
Os bandidos, no entanto, soltam a mocinha numa praia deserta e o que intriga é que mesmo sã e salva ela continua a se sentir desamparada. O filme desenvolve bem esse clima de agonia. O sentido de risco para a personagem prevalece na vida corriqueira, como se ainda estivesse com as vendas nos olhos.
Como diretor Affleck também carrega bem nas tintas da ironia. Não esconde do espectador quem são os bandidos. Aliás, até os policiais sabem quem são os assaltantes. Prendê-los torna a questão um pouco mais complicada, porque eles precisam de provas. E todo mundo parece presa da auto-corrupção. Menos a mocinha, que continua a ser observada pelos policiais e pelo chefe da quadrilha (Affleck).
Verdade que a trama nem é muito original, e o negócio fica mais forçado quando o bandido se apaixona pela mocinha, mas Affleck brinca maravilhosamente bem com as nuances do que revelar e o que esconder. Define em três pinceladas um ambiente, dirige um bom elenco a ponto em que mesmo os papéis mais ínfimos têm ressonância e espessura, filma as cenas de ação de modo nervoso e legível. 
Enfim, crime, corrupção e suspense armados com categoria.

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