Nas mãos de Bigelow, a Hora fica mais Escura

A obsessão com que Kathryn Bigelow detalha a missão de caça a Osama Bin Laden chega a irritar neste A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty). Sua heroína – Maya (Jessica Chastain), a agente da CIA que não descansa enquanto não chega ao “fim da linha” – parece um míssil teleguiado, deixa pelo caminho tudo aquilo que não seja essencial ao seu objetivo: acompanhar o percurso que levou os serviços secretos americanos ao complexo de Abbottabad onde Osama bin Laden se escondia.
O filme gera a expectativa e ficamos na ponta da poltrona aprensivos e ao mesmo tempo maravilhados com a forma aguda como Bigelow investe no tema e endossa a autenticidade da sua recriação filmando inclusive em locais reais. A diretora, por sinal, se vale da moderna técnica do new journalism para esmiuçar os pormenores da investigação e da captura. Tudo é compilado, detalhado, e a atenção tem que ser redobrada para não perder um lance, afinal os personagens, muitos deles também inspirados em figuras reais, na maioria das vezes dizem uma coisa e fazem outra.
O filme se abre a subtextos , mas eles nunca são esfregados na cara. Maya é fria e agressiva nos seus propósitos, porque num mundo de militares, coração e alma a colocariam em desvantagem. A primeira parte do filme tem sequências duras de tortura e num momento ousado vemos Barack Obama fazendo uma declaração na TV dizendo ser inadmissível a tortura em seu governo. Detalhe: os torturadores americanos da CIA assistem o pronunciamento silenciosos.
Se existe algo que incomoda é a forma como Bigelow a certa altura puxa a sardinha pelos EUA. Quando os americanos começam a exagerar na tortura, ela dá sempre um jeito de encaixar uma cena de atentado para justificar a ação da CIA. Na contabilidade: são quatro cenas de tortura, pra seis de atentados.
O terreno em que Bigelow é bamba é o da ação e quando chega a hora, a moça mostra que não está pra brincadeira. É fascinante como ela se deleita com a logística militar, com a movimentação organizada dos soldados, a formação de ataque dos helicópteros. Depois como alterna planos e ângulos, levando-nos a experimentar a sensação crescente de tensão, tateando quartos escuros apenas com visão de infra-vermelho.
Tatear um perigo que não se vê, eis o grande terror que assombra a superpotência.
Baixada a poeira, corpos ensanguentados no chão. A conclusão já é conhecida e aqui é mostrada com uma secura, que logo na saída me frustrou como espectador. Só depois me dei conta de que a frustração é calculada, provoca angústia, o vazio e ecoa sem solução por todos os lados.

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Tarantino solta o faroeste das amarras em Django

Se o Django original de Sergio Corbucci parecia um anjo vingador com uma metralhadora giratória em punho e os olhos faiscantes de Franco Nero, o Django de Tarantino não tem nada de anjo, é um ex-escravo truculento (Jamie Fox) com um colt ponto 45 na mão e uma pontaria assombrosa. Adora atirar no baixo ventre dos branquelos. Veste roupas berrantes, óculos escuros e salta pro cavalo como se fosse ver um show do James Brown. Tarantino pouco se lixa para verossimilhanças e menos ainda para manter a tradição do gênero western.
Seu Velho Oeste é muito particular. Não tem índios em cena. Esses já foram dizimados na época em que acontece a história de Django Livre (1859, dois anos antes da Guerra Civil). Também não tem aquele clima mitológico, mesmo porque ninguém mais tem saco pra aguentar a versão de que os Estados Unidos foram uma nação construída em clima de epopéia. Nem xerife do bem. Tarantino já começa seu filme ridicularizando o homem da estrela no peito. O racista entra no saloon para expulsar o negro que se atreve a beber cerveja onde só é permitido brancos, e morre antes de dizer sua terceira fala. O temível barão de gado (Don Johnson) também se atreve, e Django o espinafra. Nada, aliás, é temível no filme, nem a ku klux kan bota panca. Parecem um bando de patetas, imcompetentes até na hora de fazer os furos nos sacos que cobrem a cabeça. Tem uma cena digna de Monty Python, o bando mal consegue perseguir Django porque não enxerga nada.
Pradarias contemplativas então? Ah, isso ficava bem nos filmes do Sergio Leone, Tarantino se apressa nestas partes.
O Velho Oeste neste Django é feio, sujo e livre. E a ironia: quem conta a história é um alemão pouco confiável. Lembra de Christoph Waltz, o general nazista de Bastardos Inglórios? É uma primazia de Tarantino colocá-lo em cena. É como se Waltz tivesse saltado daquele filme para esse e simplesmente tirado a farda. O alemão captura nossa atenção e nos convida para participar de uma aventura, como se ele fosse Virgilio e nos tivesse conduzido pelos círculos do inferno de Dante.
Waltz exala a simpatia de um diabrete, falando de alta civilização e de lendas germânicas, mas sendo logo desmascarado pelo modo impiedosoa como mata e caça seus alvos. Quando Django vacila em matar um homem na frente do filho pequeno, o alemão lhe fala em negócios e clama para Django largar de frescura e matar logo o cara. Não há pistoleiros em cena, mas sim um desfile de sociopatas um mais imprevisível que o outro.
Tarantino joga na sua coqueteleira todos os elementos do faroeste tradicional, bate com gelo e serve em copos sem açucar. E também sem medo de botar refugos, sem medo de brincar, ou fazer pastiche.
Como o personagem de Jamie Fox, esse Django é realmente um filme livre de amarras. E também um dos mais divertidos do diretor. A habilidade de Tarantino funciona em perfeita sintonia com suas obsessões. Chega a mesclar trilha de western spaghetti, com hip hop e soul music para descobrir melodias que funcionem como contraponto para a ação que rola na tela. E cenas longas e estranhas que pulsam com um potencial de violência de perder o fôlego. A sequência final no lar do senhor de escravos vivido por Leonardo DiCaprio consegue ser ao mesmo tempo engraçada e chocante, pela forma brutal como os personagens derrapam no chão de sangue.
Dizer que o filme é uma ode a vingança contra o racismo, tá evidente na ação. Não é o que verdadeiramente dá prazer em ver nesse Django. Tarantino nunca explora o significado profundo do mundo que mostra, mas sim o de como pode ser amoral e anárquica a vida dentro dele. E então convida o espectador a abrir os olhos pra viajar dentro de suas sangrentas pradarias.

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O Hobbit sai da toca e decepciona

A aventura em clima cerimonial da transposição de Peter Jackson para O Senhor dos Anéis hoje me faz coçar a cabeça desconfiado. E acho até curioso que não apareceu nenhuma sátira contundente ao excesso de heroísmo e gestos grandiosos dos personagens, porque Jackson levantou respeitosamente a bola, e ninguém cortou como podia (que saudades da turma do Monty Python!).
Pois agora temos novas chances com “O Hobbit” e elas são maiores.
Se havia um mérito na saga cinematográfica anterior é que se sentia o empenho, a paixão do ou tudo-ou-nada para garantir que finalmente a obra de Tolkien chegasse ao cinema. Aqui, nada disso: fica-nos a dúvida sobre se as considerações artísticas de fazer justiça ao Hobbit chegaram primeiro ou foram as considerações comerciais de assinar outro blockbuster de prestígio (coisa que, há dez anos, estava longe de ser garantida).
A produção é caprichada e bem polida, mas já sabemos onde vamos e procuramos o sentido de diversão, numa narrativa que custa a desenrolar. Estão lá o velho Gandalf (um Ian Mckellen simpático até quando interpreta no piloto automático), o bondoso Bilbo Bolseiro (Martin Freeman se esforçando para garantir o carisma), e treze anões feios sujos e desajeitados, que podiam ser muito engraçados, mas são pouco.
É verdade que o legado de Tolkien permitiria outra dimensão de espetáculo e diversão. E não menos verdade que, em breves momentos (em especial em torno do bizarro Gollum, o “boneco digital” fabricado a partir da composição de Andy Serkis), compreendemos que há, aqui, muitas potencialidades que ficam por explorar. Mas Jackson não consegue ir além. Percorre o caminho sem um rasgo, sem uma surpresa, sem qualquer efeito que marque a diferença.

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O céu não cai para novo James Bond

James Bond celebra 50 anos e o céu não cai pra ele, como o título inicialmente pode prever. Monossilábico, espirituoso, Bond apanha mas nunca esteve tão na estica. Sofisticado, brutalmente implacável, vestido por Tom Ford.
A comemoração aliás rodeia-se de bons meios de produção e gente ilustre (atrás e à frente das câmaras).
E o resultado?
É quase tão empolgante quanto “Cassino Royale”, o filme que colocou a franquia nos eixos, inserindo James Bond no compartimentado e tecnológico século 21. Em “Skyfall”, Bond e o MI6 movem-se num novo mundo, onde a nacionalidade e rosto do inimigo mudaram, bem como na forma de combatê-lo. O herói sente-se um brucutu no meio das gadgets novas, tenta passar por cima da pirralhada que assume o controle, mas é zombado a altura: “Meu velho, de pijama no meu quarto, consigo fazer mais estragos em uma hora, do que você fez como agente em toda sua carreira”, diz o novo e imberbe “Q”.
Enfim, Bond se revela mais humano, frágil e falível e pra aliviar o stress, só lhe resta beber seu drink favorito, pilotar o Aston Martin DB5 – sim, o de “Goldfinger” -, e buscar nos métodos “old school” uma forma de se reinventar.
A entrada do vilão em cena, aliás, empurra o filme para uma maior densidade emocional. Javier Bardem brinca com o papel de vilão e se diverte criando o momento mais homo-erótico da saga. E o diretor Sam Mendes surpreende com os seus dotes para cenas de ação. Se, por um lado, mostra destreza para as cenas de ação (a sequência de abertura, em Istambul, é exemplar neste sentido), não se inibe de grandes momentos de “mise en scéne” (a cena, em Xangai, no edifício “transparente”, num hipnótico festival de luzes, cristal e sombras – a trazer à memória a cena dos espelhos no final de “The Lady from Shanghai”).
E o filme vai mantendo essa energia até que, curiosamente no rolo final Sam Mendes parece tropeçar. Quando Bond percebe que não consegue vencer o vilão no terreno tecnológico, decide atraí-lo para a fazenda Skyfall. Longe da ultrassofisticada rede de informações, o duelo entre o herói e seu arquiinimigo soa coerente, mas a direção de Mendes entra no piloto automático. O clímax é filmado de forma mecânica, sem esmero, sem paixão. Ao estabelecer a ordem da franquia nas cenas finais, Mendes parece se constranger. Deixa tudo arrumadinho para confortar os fãs, mas a inspiração parece abandoná-lo, talvez porque o que verdadeiramente sempre interessou no cinema desse diretor foi a inquietação, o caos do mundo contemporâneo.
É nesse ponto que percebo como durante toda a projeção estava torcendo para o céu cair para o herói. Seria muito mais ousado manter James Bond no terreno da vertigem. Atual e menos artificial. Não foi desta vez. Ouvir a clássica musiquinha da série no final me deixou frustrado, mas para os fãs é reconfortante. Não é mais que isso que eles esperam.

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Looper – Assassinos do Futuro

É um prazer ver neste “Lopper – Assassinos do Futuro” o reencontro do cinema americano com o que John Carpenter, James Cameron e George Miller faziam nos anos 80. Não eram tão originais, e é certo, abusavam da pirotecnia como agora, mas havia algo mais, um fascínio pelo engenho, pelo prazer do lúdico, pelo faz de conta. Além disso, eram grandes narradores, usavam os mesmos ingredientes de sempre para criar algo de novo, respeitando os códigos ao mesmo tempo que os manipulando e distorcendo.
“Looper” é o passo seguinte dessa desconstrução, um western policial futurista a meio caminho entre o Ray Bradbury do Som do Trovão e o fantástico La Jetée de Chris Marker e da sua reinvenção por Terry Gilliam em 12 Macacos (aliás, nem falta Bruce Willis).
A história acontece entre dois tempos, 2034 e 2074. Em 74 se torna possível viajar para o passado. Poderosas organizações criminosas usam as viagens para “eliminar” quem mais lhes convém. Não só enviam os desafetos de volta trinta anos antes, criam no passado um grupo de assassinos para limpar qualquer vestígio de existência desses desajustados.
Joe (Joseph Gordon-Levitt) é o jovem do passado, que ganha a vida matando literalmente os homens do futuro. Sua vida vai bem até que descobre que o próximo alvo que lhe é atribuído é ele próprio, 30 anos mais velho (papel feito por Bruce Willis).
A isto chamam no filme “fechar o loop”, “fechar o ciclo”. Ou seja, depois de cumprir várias execuções, a missão final de um looper é encontrar a sua versão do futuro e se matar.
O interessante é que o jovem Joe sabe que em trinta anos vai perder tudo e aceita o destino. Já o Joe mais velho não quer obedecer o procedimento. Deste impasse, o filme evolui para uma ação desenfreada, que desorienta até a noção de bem e do mal muito freqüente neste gênero. Chega um ponto em que o herói vira o vilão, depois tem uma criança que parece o Amti-Cristo, depois… bom não vem ao caso. A narrativa é de primeira, a câmera passeia entre os dois tempos, captando o ambiente futurista, cheio de detalhes curiosos, pequenos tiques, objetos e rimas visuais bem compensadas pela montagem dinâmica e fluída.
Por fim, Looper não cede à tentação obsessiva de se auto-explicar. Neste sentido, o filme é quase um anti-A Origem. Não arma esquemas para fazer a platéia entender, nem subestima o espectador. Apresenta as linhas básicas da ideia e a partir daí diverte-se em seguir as regras ou subvertê-las, criando em segundo plano um interessante mundo real.
É uma bela pedida.

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O Cavaleiro das Trevas Ressurge

cavaleiro ressurge
Neste terceiro filme da série Batman, Christopher Nolan garante um desfecho épico, com direto a redenção e uma horda de fãs deixando o cinema empolgados. Vale o preço de uma inteira? Hum, satisfação pra mim só acontece nos trechos em que Anne Hathaway dá as caras. Anne encarna o símbolo de independência e não-submissão feminina com tiradas cáusticas e é uma maravilha vê-la exibindo as curvas naquele colant negro. Quando se curva então para pilotar aquela moto do morcego, vixe!
Nolan não consegue esconder a pressão de superar o capítulo anterior. Sua direção é tensa. Falta-lhe agilidade para ligar as muitas pontas soltas das suas várias histórias cruzadas. Na prática, deparamos com um drama típico deste tipo de “franchises”: mesmo quando integram cineastas de indiscutível talento, há nelas um “caderno de encargos” que contraria a fruição das emoções que colocam em jogo. Afinal de contas, o trabalho de Nolan é todo pontuado por este pressentimento, estranhamente sensual, de que o mundo pode-se desagregar a qualquer momento (de Memento ao festejado “A Origem” o foco é sempre este).
Mas aqui há algo que não combina bem na transição para um cenário quase real de um herói tão estilizado como Batman. Gotham City facilmente poderia ser uma Chicago ou Nova York e toda a teia de intrigas políticas, econômicas e sociais tem paralelismos com a atual conjuntura. A escala do filme é enorme, tanto em termos visuais como de narrativa e é exatamente aí que a coisa desanda: a ênfase é colocada nos problemas da cidade, o que acaba por fazer com que o herói pareça destoado no meio de tudo isto; a certa altura já não estamos num filme do Batman, mas num policial recheado de heróis e vilões normais: neste filme, mais do que nos outros, a cidade surge como a personagem principal.
No fundo, a visão de Nolan é demasiado séria para o seu próprio bem. Como é que se pode abordar as maquinações da Bolsa de Valores, a riqueza ilícita, o capitalismo desenfreado e a corrupção das instituições e a seguir inserir um contexto tão maniqueísta com um vigilante mascarado repleto de gadgets hi-tech e um bandido que parece saída da arena de Gladiador?
Talvez seja uma forma de confortar as audiências, mostrando uma clarificação do bem e do mal. Coisa que soube evitar de forma inteligente em “O Cavaleiro das Trevas”, mas nesse aqui não teve jeito.

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O monstro tenta entender a cor


Tim Burton ama as sombras, mas para se recolher com segurança no seu canto escuro, faz questão de entender toda a paleta de cores. No seu anterior “Alice no País das Maravilhas” divertia-se brincando com a paleta da pintura inglesa e com personagens que pareciam saídos de uma tela pré-rafaelita e ponto. Agora neste Sombras da Escuridão, Burton limpa os olhos e desbunda para o psicodelismo da América dos anos 70 – terra e tempo em que vai dar o vampiro (a preto e branco, por força da maquiagem) interpretado por Johnny Depp, duzentos anos depois de ter sido encerrado num caixão pela bruxa (Eva Green) que o ama/odeia.
Curioso: o amar e o odiar simultâneo parece ser tema recorrente, pois no cinema de Burton estamos sempre na corda bamba, correndo o risco de não entender nem a hora de rir. Em síntese, é uma história de amor louco, mas sempre envolvendo as cores: o vampiro é preto e branco, a bruxa é de todas as cores, verde (até no nome…), azul, vermelha. Vermelha sobretudo, é a cor capital, puxada ao extremo da sua sensualidade e do seu simbolismo. Inclusive erótico: Sombras da Escuridão é mais carnudo do que o Burton habitual, tem uma cena de sexo que é uma autêntica tempestade (o estado em que fica o quarto da bruxa depois dos procedimentos) e, totalmente desconcertante pela franqueza quase ordinária do herói. É impagável a cena em que Eva Green despe a calcinha (vermelha, claro) para as depositar no rosto do vampiro amarrado no seu caixão, para que ele tenha alguma coisa em que pensar durante os anos de clausura.
Este erotismo desconcertante compensa bem o ar apressado de boa parte do filme (desde Sweeney Todd que Burton não faz um grande filme), o desenho mal aproveitado dos atores coadjuvantes (onde pontifica a ex-Mulher Gato Michelle Pfeiffer), reduzidos a uma espécie de “família Addams” em traço um pouco mais grosso do que seria desejável. Felizmente, o todo se salva no final – aliás nos dois finais: com corações literalmente arrancados do peito, mergulhos no abismo e a maldição (escolhida) como único lugar onde o amor pode ser encontrado. Amor e morte: e aqui penso em Burton outra vez como o artista que ama o negro, mas permanece fascinado em entender o pleno mundo das cores.
Entre todos os cineastas, Burton é um poeta inquieto, e sua alma não se contém nem em filmes relativamente menores como este.
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Vergonha

O sexo é o tema, a nudez é explícita e o filme, uma maravilha.
Brandon Sullivan (Michael Fassbender) é o bem sucedido publicitário que leva vida de playboy. Mas por trás dessa imaculada imagem, o solteirão esconde uma existência bem mais sombria. Desamparado de qualquer sentido de moralidade, Brandon envolve-se em constantes encontros sexuais que são incapazes de saciar a sua extrema dependência física e emocional. Em suma, o que ele busca é um escape sexual, um contato físico, seja ele qual for, como forma de aplacar a enorme angústia e agitação interior,
No meio deste turbilhão de conflitos surge Sissy (Carey Mulligan), a irmã mais nova. Cantora de talento, Sissy denota uma fragilidade similar à do mano, ainda que esta se manifeste de forma completamente distinta.
Juntos e apesar do inevitável choque, os dois irmãos tentam lidar com as suas lacunas, encurralados nos profundos problemas de ambiguidade afetiva.
Tal como tinha acontecido na sua obra de estréia, Fome, o diretor Steve McQueen filma esta fragilidade com rara sensibilidade, optando invariavelmente pelo caminho mais tortuoso. No cinema do realizador inglês não há espaço para suposições. Ele vai direto ao ponto, por mais que isso possa chocar. Já tinha batido reto na sequência da greve de fome de Bobby Sands, agora o faz com a vergonha de Brandon Sullivan.
McQueen é duro, preciso e frio no desnudamento de seu personagem. Não só. Do ponto de vista de direção, faz um filme preciso e geométrico – há longos e rigorosos planos-sequência – diálogos inteligentes e ríspidos e a fotografia de tom azul metálico cria uma impertinente aflição. Se McQueen se mantém fiel à linha diretora que tem moldado a sua (ainda curta) carreira e o seu sucesso junto da crítica, Fassbender se entrega como um cordeiro em sacrifício. Exibe-se até numa sequência de nu frontal que beira as raias do pornô e que curiosamente gera discussão.
Uma bobagem, como o próprio ator disse numa entrevista: “Metade do mundo tem um pênis e outra metade já viu um”, então como podem os meios sociais tão carregados de violência, achar a simples visão de um membro constrangedora?
Em poucos palavras: McQueen pára pra fitar o espectador nos olhos.
E quem não aceita, melhor passar longe.

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A Invenção de Hugo Cabret

Deslumbrante imersão de Martin Scorsese pelo universo infantil. Nesse “A Invenção de Hugo Cabret” o mundo vira um complexo brinquedo formado por engrenagens, polias rebites e contrapinos que de alguma forma precisam se encaixar. E Scorsese é o relojoeiro, que com precisão suíça, vai ajustando cada peça até fechar um lindo quebra-cabeças. Em clima matemático, portanto, divide seu filme em duas partes. Na primeira revela-nos o mundo de Hugo (o garoto Asa Butterfield), como ele se insere nos anos 20 em Paris, seu talento para consertas relógios e sua condição solitária de observador, olhando as pessoas e o movimento sempre por trás das paredes. A condição de voyeur, aliás, é de puro deleite: torna essa primeira parte quase em cinema mudo.
Em companhia de Hugo há apenas um pequeno robô quebrado, que ele acredita que com as peças certas possa ganhar vida e talvez, quem sabe ser o amigo que ele precisa. Afinal, o pai de Hugo morreu e ele foi morar com o tio nos porões da Estação de Paris, mas o homem misteriosamente sumiu e ele está sozinho, a procura de algo, talvez uma resposta para a sua mecânica existencial.
Então o mundo de Hugo se abre na segunda parte. O menino se aproxima de um senhor (Ben Kingsley), dono de uma loja de brinquedos, que se revela ninguém menos que o esquecido cineasta Georges Mellies. E quem melhor para falar de Méllies, que um amante da memória do cinema como Martin Scorsese?
Nesta sequência, temos a recriação do fantástico mundo de um cineasta mágico com imagens incríveis da encenação do curta “Viagem à Lua” (1902), e que inclui as sequências restauradas do filme original, além de outras pérolas das origens do cinema. É um momento onde se revela a paixão e a angústia de um personagem marcado pelo tempo, mas vivo na mente das pessoas através do poder das imagens.
De fato, a ambição de Scorsese é tão desmedida, que até comove. Há imensas camadas pra se deleitar e apenas uma ida no cinema não resolve. Desde a leitura mais direta (infantil?) que passa por seguir duma forma mais linear a fascinante história, passando pela apresentação instrutiva para as novas gerações do que foi os primórdios do cinema, até uma leitura mais existencial, onde somos ironicamente colocados como peças de um grande sistema.
No entanto, muito mais difícil é conseguir que esse argumento tão sistemático  chegue aos nossos olhos duma forma tão sublime! Desde a escolha dos atores, até o mais ínfimo pormenor, quer no decor, quer no tratamento dos contrastes e da cor, profundidade de campo (em que Scorsese é mestre, com ou sem 3D), o diretor orquestra tudo com mão de mestre. Por sinal, este talvez seja o filme em que Martin Scorsese mais se dobra as chamadas novas técnicas e não deixa de ser curioso como ele as use para nos “falar” do passado.
Por outro lado, em “Hugo” está implícito e explícito todo o apelo ao sonho que, para o melhor e para o pior, o cinema trás consigo desde os primórdios. E que ao sonho e à ousadia de ousar, ironicamente passe pela repetição. Sim, temos que aceitar o cinema como a arte mais genuína criada pela revolução industrial. E é maravilhoso se tocar que, de certa forma, ele continua sendo a mola propulsora da criação no século 21.
A Invenção de Hugo Cabret é isso, a fábrica de sonhos, onde mais uma vez, o jovem (sem aspas) Martin Scorsese ousa criar uma obra-prima.
 
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O grito do Artista mudo

Esse George Valentin é o herói mais insolente do cinema do momento. No lugar das cores, brilhos e do 3D ele prefere o monocromático preto e branco. E em vez do imponente som em alta fidelidade esboça o grito, mas não ouvimos sua voz.
O ano é 1927, estamos em Hollywood no apogeu do cinema mudo e George Valentin (o ator francês Jean Dujardin) é o astro das matinês. Enfrenta o mal na base das acrobacias e termina sempre salvando o mundo e ficando com a mocinha.
Quando a sessão acaba as pessoas aplaudem, ele desperta a imaginação das crianças e cativa as mulheres com seu bigodinho fino e retro, mas bastam dois anos para ele passar da fama ao ostracismo. Chega o cinema sonoro e George não adere a tecnologia, porque se acha maior do que qualquer modismo.
Na sequência, Valentim se apaixona por uma garota (Berenice Brejó) que se tornará a atriz-símbolo do que ele tanta despreza. No filme essa transição serve de metáfora para a obsessão que une os dois personagens principais e ao mesmo tempo os afasta. É verdade que já vimos algo semelhante em Nasce Uma Estrela e em Cantando na Chuva com muito mais pompa.
Mas o diretor Michel Hazanavicius não se intimida diante dessas duas obras-primas. Nem estabelece uma aura mítica ao protagonista. Não estamos diante de um grande talento, George Valentin não é um gênio incompreendido, está muito longe de um Orson Welles. Ainda assim, quer preservar uma arte, e o filme uma análise fascinante sobre a motivação obsessiva de se criar uma arte intuitiva, uma arte de pequenos gestos.
Melhor ainda: o diretor Hazanavicius se rende a essa obsessão, sem o embaraço de parecer por vezes simples ou ingênuo. Pode ter certeza que alguns irão tachar o filme de old fashion e o diretor de um idealista retrógrado, mas isso só confere um apreço maior a essa obra concebida fora de qualquer espírito propagandístico.
E também dos rótulos. Não é velho, não é novo. Mas aguça os sentidos de qualquer cinéfilo com puro prazer.

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