Os Descendentes: fácil de ver e fácil de esquecer

No cinema americano atual, sem dúvida, Alexander Payne é dos poucos que pensam num espectador adulto. Em parte, e porque a escolha é cada vez mais reduzida, isso explica o sucesso que o filme tem tido nos mecanismos tradicionais de Hollywood, e por certo continuará a ter (pode dizer o mesmo de “Moneyball”, filme que sob determinada perspectiva é bastante parecido com este de Payne). Não tem truques, não acelera, não tem luzinhas piscando para chamar a atenção. Merece respeito por fugir da tradição. Mas não todo esse barulho em torno, como se estivéssemos diante de um momento capital do cinema.
Estamos longe disso. Os Descendentes não corre riscos, nem traz qualquer grau de ambigüidade. A mulher do personagem de George Clooney sofre um acidente, fica em coma, e o cara fica entontecido frente a necessidade de administrar um lar e aceitar as convenções. Reúne as filhas, visita os familiares e os amigos, compenetra-se no seu papel de pai e de marido, tem que lidar com um patrimônio familiar que, vem passando de geração em geração – e por fim se toca que é herdeiro de uma tradição do qual não tem certeza se quer escapar.
O filme é “bem escrito”, dos diálogos à organização narrativa, tem uma fluidez e uma elegância que dão tanto prazer como têm tendência a frustrar (sabe aquela velha máxima pasoliniana que diz que um filme deve “destruir o argumento” ? Em “Os Descendentes” não há sequer um plano que se “revolte” contra o argumento).
De fato, temos dois, três momentos em que o filme vai além da escrita, quer dizer, onde se passa alguma coisa de ordem transcendente. São, por ordem: a corrida desesperada de Clooney (em “tempo real”) depois de saber da infidelidade da mulher (que está em coma); o mergulho da filha mais velha depois de saber que a mãe vai morrer; e o plano final, sobre o qual o pai e as filhas em frente à televisão, encontram uma maneira de se recompor se alienando na telinha. E é isso.
Há uma decência, quase uma ternura – no modo como Payne é justo com todos e, dependendo do ponto de vista, você pode achar isso admirável ou inaceitável. Cinema de diplomata. Não agride nenhum grupo, nunca é desagradável e também não produz nenhum arroubo. É fácil de ver e fácil de esquecer.
Hamilton Rosa Jr. – Jornalista e Crítico de Cinema, Filmes Nacionais e Estrangeiros, DVDs, Blu-Ray, HD-TV, Entretenimento, Cults, Preview, Estréias, Mostra, Festival.
Arquivado como: Cinema on Fevereiro 1st, 2012









































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