O monstro tenta entender a cor

Tim Burton ama as sombras, mas para se recolher com segurança no seu canto escuro, faz questão de entender toda a paleta de cores. No seu anterior “Alice no País das Maravilhas” divertia-se brincando com a paleta da pintura inglesa e com personagens que pareciam saídos de uma tela pré-rafaelita e ponto. Agora neste Sombras da Escuridão, Burton limpa os olhos e desbunda para o psicodelismo da América dos anos 70 – terra e tempo em que vai dar o vampiro (a preto e branco, por força da maquiagem) interpretado por Johnny Depp, duzentos anos depois de ter sido encerrado num caixão pela bruxa (Eva Green) que o ama/odeia.
Curioso: o amar e o odiar simultâneo parece ser tema recorrente, pois no cinema de Burton estamos sempre na corda bamba, correndo o risco de não entender nem a hora de rir. Em síntese, é uma história de amor louco, mas sempre envolvendo as cores: o vampiro é preto e branco, a bruxa é de todas as cores, verde (até no nome…), azul, vermelha. Vermelha sobretudo, é a cor capital, puxada ao extremo da sua sensualidade e do seu simbolismo. Inclusive erótico: Sombras da Escuridão é mais carnudo do que o Burton habitual, tem uma cena de sexo que é uma autêntica tempestade (o estado em que fica o quarto da bruxa depois dos procedimentos) e, totalmente desconcertante pela franqueza quase ordinária do herói. É impagável a cena em que Eva Green despe a calcinha (vermelha, claro) para as depositar no rosto do vampiro amarrado no seu caixão, para que ele tenha alguma coisa em que pensar durante os anos de clausura.
Este erotismo desconcertante compensa bem o ar apressado de boa parte do filme (desde Sweeney Todd que Burton não faz um grande filme), o desenho mal aproveitado dos atores coadjuvantes (onde pontifica a ex-Mulher Gato Michelle Pfeiffer), reduzidos a uma espécie de “família Addams” em traço um pouco mais grosso do que seria desejável. Felizmente, o todo se salva no final – aliás nos dois finais: com corações literalmente arrancados do peito, mergulhos no abismo e a maldição (escolhida) como único lugar onde o amor pode ser encontrado. Amor e morte: e aqui penso em Burton outra vez como o artista que ama o negro, mas permanece fascinado em entender o pleno mundo das cores.
Entre todos os cineastas, Burton é um poeta inquieto, e sua alma não se contém nem em filmes relativamente menores como este.
Hamilton Rosa Jr. – Jornalista e Crítico de Cinema, Filmes Nacionais e Estrangeiros, DVDs, Blu-Ray, HD-TV, Entretenimento, Cults, Preview, Estréias, Mostra, Festival.
Arquivado como: Cinema on Maio 24th, 2012









































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