As Dicas de DVDs - Semana 92

Cortesia: www.cinelog.com.br

Garota Infernal (Fox Filmes)
Megan Fox, aquela mocinha cheia de curvas que cada vez que aparecia em Transformers, até os robôs paravam para olhar, ganha aqui um filme só pra ela. Aliás, um filme perverso, porque Diablo Cody, a roteirista de “Juno”, imagina o que aconteceria com meninos e meninas se matriculasse um avião como Megan na high school. Claro, que daria um belo samba.
Mas Megan no filme Jennifer, é uma figura do mal. É a teen assanhada, que não rejeita o convite dos moleques para acompanhá-los numa tarde na floresta. Fala sério?
O problema é que ela entra no mato com um time de futebol e volta sozinha. Uhh, a mocinha tem um diabo no corpo e literalmente come até o tutano de suas vítimas. Dá pra encarar?
Claro que sempre aparece gente disposta a pagar pra ver.
O filme trata de sexo e medo. E Diablo, que já nos mostrou o que os hormônios em ebulição podem fazer com uma adolescente grávida, agora revela o que o diabo pode fazer no corpo de uma mocinha. Diabo, Diablo, belo trocadilho da bem humorada roteirista.
Jennifer olha pra o espelho da penteadeira e não precisa perguntar se existe alguém mais bela do que ela.
No íntimo, é verdade, que ela se sente só. Aliás, a introvertida Needy (a loura aguada Amanda Seyfred, de Mamma Mia) parece ser a única que a entende. São amigas desde a infância, continuam a fazer juras de amizade eterna, e até os planos são semelhantes.
Isso até acontecer a tal encarnação do demônio, que levará as duas ao estranhamento.
O textoi realmente é bom. Diablo Cody, muito perspicaz, usa o artifício mais para revelar como a vaidade é capaz de consumir as mulheres a medida que crescem e competem pela atenção do sexo oposto. A natureza feminina aqui é tão traiçoeira que vai divertir boa parcela do público masculino e indignar a maior parceladas espectadoras femininas.
Se o filme não se realiza plenamente, o mérito deve ser depositado na direção de Karyn Kusama. Ela aperta o espírito carnal de Megan Fox em roupas sumárias e fetiches sadomasoquistas de segunda categoria, enquanto o texto de Diablo pedia algo mais solto e bem humorado – uma festa pagã, com uma deusa diabólica que come os homens porque não vê outro propósito para eles, enquanto abre espaço para as mulheres dominarem a Terra.

Acima de Qualquer Suspeita (California Filmes)
O original era um suspense macabro de Fritz Lang (o título em português, Suplício de Uma Alma) onde a profundidade da corrupção tanto numa sala de julgamento como numa redação de jornal parecia não ter fim. Neste remake a América não parece tão suja, mas basta o diretor Peter Hyams apresentar Michael Douglas como um procurador público, para a gente sentir que a perversão ainda tem uma cara, um fascínio. Jesse Metcalfe faz o jornalista inquieto que desconfia da notoriedade do procurador, sobretudo depois que o outro vence uma sucessão política sem precedentes. O sujeito construiu sua reputação, resolvendo 17 casos sempre com uma prova circunstancial parecida.
Determinado a desmascará-lo, o repórter embarca num audacioso plano – fabricar uma série de provas circunstanciais que apontem para ele próprio como assassino, e depois revelar a artimanha quando o procurador apresentar a sua prova “surpresa”.
Claro, que a artimanha funciona até certo ponto. Mas então a encenação que parecia estranhamente transparente se desfaz, o jornalista perde seus álibis, e fica no corredor da morte.
A trama é ótima, trata da natureza corrupta da ambição e da ganância, a busca de dolorosas verdades, o poder que o amor e a paixão têm para nos revelar mas que também pode nos cegar. E a direção de Hyams é inspirada. Ele transporta para os nossos dias essa genuína e inimitável sensibilidade noir sem perder nada do que a distinguia – as personagens imperfeitas, mas incandescentes, o engenho narrativo, a ironia e o fatalismo.
Não é ouro como o filme de Fritz Lang, mas dá uma pela prata.

Coleção Sergio Bianchi (Versatil)
O diretor Sérgio Bianchi é a consciência culpada do Brasil. Autor de seis filmes de longa-metragem e de vários curtas, ele utiliza uma mistura característica de ficção, documentário e especulação ensaística para analisar e criticar a complexa identidade nacional do seu país — uma mistura maluca de classes, etnias e zonas econômicas antagônicas.
E esse pack lançado pela Versátil é uma beleza, engloba tudo o que o diretor fez e ainda apresenta depoimentos de amigos, documentários e fotos do bau do homem, do mito. Bianchi se define como um provocador. Em “Cronicamente Inviável”, utiliza várias figuras representativas — incluindo um estranho professor universitário, um garçom dotado de uma veia anarquista, uma índia que se reinventou como capitalista e uma negra que trabalha para uma mulher branca que foi sua amiga de infância — para compor o retrato de um país à beira do colapso.
Ele é sarcástico. Parece gostar da idéia sádica e trágica de que a nossa miséria sempre avança.
Já em Quanto Vale ou é Por Quilo? a indignação com que o realizador ataca a Indústria da Caridade é semelhante à revolta que se apossou dele, quando um dia foi a festa de uma ONG em Praga e ficou escandalizado com o luxo e a mordomia (para não detalhar a fartura de comida) dos envolvidos. Bianchi notou ali o nascimento de um novo mercado, uma elite utilizando a Indústria da Caridade para cumprir dois objetivos: ficar mais ricas e tentar comprar uma paz de consciência. O filme esmiúça esse mundo, mostrando o braço de ferro travado entre Herson Capri, representante das ONGs, com um pequeno bandido interpretado por Lázaro Ramos e a forma como personagens de outras classes sociais giram em torno destes dois pólos.
Bianchi sempre desconfia de tudo, parece desconfiar até de si mesmo, ao dizer que muitas vezes não resiste ao retoque, a vontade de buscar algum encanto para seus personagens. Neste sentido, A Causa Secreta talvez seja seu trabalho mais auto-crítico. Ali temos um grupo de artistas montando uma peça, bem imbuídos do desejo de pesquisar a miséria e levá-la para os palcos. Há algo de obsceno nesta pesquisa, nesta vontade de transformar as mazelas em espetáculo, que divide a troupé.
Bianchi é sempre polêmico, mas talvez nunca tenha rodado uma cena mais chocante do que o trecho em que detalha o diretor da peça torturando um rato. O filme foi repudiada na época mais por causa desta sequência do que propriamente pelos terríveis cenas da miséria humana.
Os filmes de Biachi não são para todos, mas pode ter certeza: ninguém no cinema brasileiro cria alegorias mais emocionalmente perturbadoras, da justiça, culpa e expiação na terra brasilis, do que ele.
Para cinéfilos, um pack obrigatório.

Hamilton Rosa Jr. - Jornalista e Crítico de Cinema, Filmes Nacionais e Estrangeiros, DVDs, Blu-Ray, HD-TV, Entretenimento, Cults, Preview, Estréias, Mostra, Festival. 

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