Estréia: Chéri

Ninguém parece fazer melhores filmes sobre jogos de poder erótico do que Stephen Frears. O realizador de “Ligações Perigosas”, “Coisas Belas e Sujas” e “Sra. Henderson Apresenta” aqui se vale da presença de Michelle Pfeiffer para fazer uma bela meditação sobre o “amor louco” de uma prostituta cinquentona por um jovem, filho de uma companheira de profissão. A história é passada na alegre belle époque, mas existe um pronunciado clima de fim de festa na vida dos personagens. Os homens nos bares erguem brindes e se exaltam em falar da bela e safada Léa de Lonval (Michelle). É a prostituta das prostitutas, está no auge da sua glória e parece controlar o mundo a sua volta como a regente de uma orquestra. Mas o incorrigível Chéri (Rupert Friend) faz ela reencontrar a beleza e a verdade: é um adolescente em toda a insolência dos seus 20 anos.
E essa tensão produz momentos de humor na mesma medida que instantes de crueldade. Ela dá tapas no bumbum de Chéri e lhe pede para ter modos, mas o danado transforma a cama da Léa/ Michelle num ringue de disputas, ele vem por cima, ela vira o jogo e o coloca por baixo e os dois se consomem de tal forma, que viram prisioneiros da própria relação.
Mas passam-se os anos, Léa envelhece e nenhum dos
dois pode sobreviver à perda do outro; nenhum deles pode vencer as regras sociais, embora ambos se situem na marginalidade: uma reformada e rica prostituta de luxo e um “gigolô” enfeitiçado - ou seja, Colette no seu melhor.
A maturidade de Michelle Pfeiffer serve a esse olhar sobre um mundo que está a terminar, de arquiteturas florais, de carruagens, de hotéis em Biarritz, de véus, plumas e trajes sofisticados, de forma comovente.
Frears descreve aqui um duplo e contraditório processo de decrepitude/ renascimento. E sua direção, que não deixa escapar um só olhar, permanece atenta a cada personagem ao mundo-palco onde todos parecem representar um papel.
O momento mais forte é sem dúvida a longa sequência em que a prostituta se olha no espelho, tentando grudar uma máscara de falsa juventude no rosto já desfeito de vitalidade e ri.
A atuação de Michelle empresta uma emoção venenosa a “Chéri”.
Hamilton Rosa Jr. - Jornalista e Crítico de Cinema, Filmes Nacionais e Estrangeiros, DVDs, Blu-Ray, HD-TV, Entretenimento, Cults, Preview, Estréias, Mostra, Festival.
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