Os Irmãos Grimm, o filme talismã de Terry Gilliam

Cortesia: www.cinelog.com.br

Verdade que essa edição em Blu-Ray de “Os Irmãos Grimm” podia ser turbinada como a que saiu no exterior, e que dizem trazer os arrojados desenhos de Gilliam (a arte conceitual do filme agrupa um calhamaço com mais de 700 desenhos assinados pelo diretor!). Mas já dá para sentir o requinte do projeto nesta edição simples. Gilliam dirige Os Irmãos Grimm com o mesmo espírito barroco e inclassificável que caracteriza seus melhores filmes (“O Pescador de Ilusões” e “Brazil, O Filme”). É no mundo das lendas e contos de fadas que o realizador se mete, fazendo de Jakob e Wilhelm Grimm - os irmãos que passaram a vida criando contos da tradição popular na Alemanha rural - um par de vigaristas, uma espécie de caça-fantasmas que ganham vinténs aproveitando-se da crença do povo em bruxas e bosques encantados.
Isso só até Jakob (Heath Ledger) e Will (Matt Damon) cometerem um erro de cálculo, que não demora, porque eles podem ser imaginativos, mas os recursos usados para a encenação da farsa sempre foi muito mambembe. Assim a dupla é  desmascarada e obrigada a provar do próprio remédio, enfrentando um maldição verdadeira numa floresta sombria habitada por uma terrível Bela Adormecida (Monica Bellucci).
Gilliam monta uma parafernália de objetos e truques em cada canto do cenário e enche a história de referências aos contos dos Grimm. Os assustados habitantes de uma vila recebem a visita de uma velha corcunda que vende maças. Jakob foge de um castelo usando os cabelos de uma Rapunzel. A primeira vítima da Floresta é Chapeuzinho Vermelho. Os seguintes são João e Maria. Há também tempo para dar uma piscada para o cinema clássicos de terror. A referência mais evidente vem de M – O Vampiro de Dusserdolf, quando um monstro de lama seqüestra a filha de um casal do vilarejo. A mãe sai à janela para gritar o nome da menina: Elsie! Elsie! Mas o silêncio é uma entidade estranha e ele vem da floresta.
Os habitantes da vila fecham portas e janelas, mas a câmera de Gilliam é mais corajosa e não aceita a reclusão. Ela fica lá fora. O mistério, a inexplicabilidade, a falta de porquês é intencional. Por um bom tempo o filme segue assim. O significado é plural, subjetivo, flutua em várias ramificações e cada espectador tem a oportunidade de pensar no que mais lhe convém. Mas Gilliam não pode ficar neste terreno inseguro por tanto tempo. Ele, que tentou adaptar Dom Quixote para o cinema e quase arruinou a carreira por isso, não podia se arriscar ao devaneio puro e simples mais uma vez.
Isso não significa que tem medo de errar.
Há fragilidades no filme. Principalmente no que se refere ao segmento que envolve o oficial francês com ar de Napoleão (interpretado por Jonathan Pryce) e seu braço direito, o atrapalhado Cavaldi. O italiano Cavaldi é um personagem planejado para fazer rir, mas o sueco Peter Stormare que vive o papel é nórdico demais para tentar entender o jeito histriônico de um latino. Por isso as piadas que saem deste personagem, são sempre de mau gosto.
Esse é o preço de ter uma imaginação fértil. Gilliam é tão criativo que nem sempre consegue controlar o tom de seus delírios. Às vezes, eles soam primários, outras comovem pela pureza e magia.
Os dois heróis em cena, Jakob e Will, juntos formam o alter-ego de Gilliam. Um deles é pratico e oportunista; o outro quer encontrar um sentido para a aventura que está vivendo. A coexistência entre os irmãos é tudo menos pacífica e a sobrevivência depende de um frágil equilíbrio entre ambos, da aceitação de que em algum momento um deles terá de ceder.
Muito intrigante é saber que depois Gilliam voltou a trabalhar com o mais inquieto dos atores que interpretam esses irmãos, Heath Ledger, em O Imaginário do Doutor Parnasus. A parceria comprova para onde a balança do cinema deste diretor sempre pendeu.
Gilliam não esconde também que brigou sucessivas vezes com os irmãos Weinstein, produtores do filme. E essa queda de braço está alegoricamente representada, pelo trecho em que Jake e Will sobem a torre do castelo em ruínas e se defrontam com a bruxa. Eles percebem que somente juntos poderão liquidar a missão. A batalha dentro da mente criativa de Gilliam para superar os palpites dos produtores e terminar o filme encontra paralelos semelhantes. A linha entre a realidade e a ficção desvanece aqui.
Hamilton Rosa Jr. - Jornalista e Crítico de Cinema, Filmes Nacionais e Estrangeiros, DVDs, Blu-Ray, HD-TV, Entretenimento, Cults, Preview, Estréias, Mostra, Festival.

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