A América áspera, num cinzento cor de fumo

Cortesia: www.cinelog.com.br

George Clooney não se contenta em apenas ser um galã de Hollywood. Em seu primeiro trabalho como diretor de cinema, “Confissões de Uma Mente Perigosa”, ele não parecia curioso apenas em contar uma história com uma câmera, queria desvendar os meandros do show bizz e entender como um artista é engolido pela máquina promocional, a ponto de inventar histórias sensacionalistas sobre si mesmo para continuar na mídia. Com “Boa Noite e Boa Sorte” (Good Night and Goood Luck, 2005), o interesse de Clooney pelo comportamento humano permanece. Mas aqui o foco sai do artista para recair num político. É o seu trabalho mais contundente como cineasta. Curiosamente é também o menos popular.
O individuo em questão é o senador Joseph McCarthy, que em princípios da década de 50 liderou um subcomitê do governo para investigar até onde o povo americano tinha ligações com os maiores inimigos do país, os comunistas. Inicialmente ninguém levou a austeridade de McCarthy a sério, mas a paranóia começou quando a União Soviética detonou sua primeira bomba atômica no deserto gelado da Sibéria e um casal americano, os Rosemberg foram presos como suspeitos de terem vendidos os segredos da fisão nuclear para os russos.
Nada disso entra em cena em “Boa Noite e Boa Sorte”, o que está em pauta é o abuso de poder, evidenciando a fina linha que divide investigação da perseguição. E de como isso causou estragos na “coesão social” da América, dividindo o país em dois blocos, exatamente como aconteceu na administração Bush. E mais, em como deu cabo das vidas profissionais de muita gente (só em Hollywood há dúzias de histórias famosas), além de ter coberto de “nobreza” algo nada bonito, a delação. Dedurar um comunista, aliás, era a única forma de uma pessoa suspeita, escapar da perseguição.
É verdade que Clooney tem razões pessoais e familiares para se interessar pela época e pelo tema em questão, visto que o seu pai, jornalista, teve a sua dose de problemas com o macarthismo. Pertencendo à “ala liberal” de Hollywood, Clooney tem também as suas razões políticas. É até fácil estabelecer paralelos entre essa América antiga e a atual, mergulhada nas tensões pós-11 de Setembro. Mas Clooney é sutil e inteligente para não construir nenhuma equivalência explícita, nem apontar nenhum McCarthy contemporâneo. Limita-se a tocar na essência das questões: a liberdade de expressão, o direito ao desacordo e o modo como isto (e não a sua supressão ou perseguição) tem a ver com a própria natureza da democracia. Elementar, pedagógico e oportuno.
Usa como veículo para isso um célebre programa televisivo da CBS, o “See It Now”, que apesar de inevitáveis pressões (e muita chantagem governamental) teve um papel importante na conscientização da opinião pública para o que havia de negativo nas atividades do senador. “Boa Noite e Boa Sorte” era a expressão com que o programa terminava sempre, pela boca do seu apresentador, o jornalista Edward Murrow (David Strathairn). A ação decorre entre o Inverno de 1953 e a Primavera de 1954. Murrow tenta convencer o produtor Fred Friendly (Clooney) a confrontar McCarthy numa entrevista. Eles cuidadosamente escolhem o caso de Milo Radulovich, um piloto da Força Aérea condecorado por atos de bravura na Segunda Guerra Mundial e que agora está sendo convocado para depor num julgamento por suspeitas de que o seu pai e irmã possam ser simpatizantes comunistas. Sabe-se que mesmo que fossem inocentes, só a exposição de Milo no inquérito já seriam suficientes para arruinar sua carreira.
A entrevista vai ao ar ao vivo e McCarthy sofre sua primeira baixa.
Filmado num preto e branco áspero, num cinzento cor de fumo (aliás onipresente, porque era uma época em que a nicotina defumava as redações), praticamente só em planos de interior no edifício e nos estúdios da CBS, “Boa Noite e Boa Sorte” é um filme extraordinariamente compacto, de exposição narrativa sequíssima. A crueza estilística, mas também a maneira de ir direto ao assunto, a ausência de floreados, tudo tem algo a ver com a tradição de filmes políticos,na tradição de um “Sob o Domínio do Mal” e de “Todos os Homens do Presidente”.
Mas a grande astúcia de Clooney quase que leva o filme para territórios de ficção científica. Trata-se da utilização extensiva de imagens de arquivo do senador McCarthy, seja em locuções televisivas seja no decorrer dos seus famigerados inquéritos. Não há um ator para desempenhar o papel de McCarthy, mas o verdadeiro McCarthy “participando” de tudo. E ele fica em cena tanto tempo, que merecia até o crédito de co-protagonista. Ao entregar McCarthy a McCarthy, Clooney liberta-se do retrato e da composição, atribuindo ao filme uma espessura especial, um “efeito de real” que vem envenenar a ficção e sobretudo a relação do espectador com ela. Mas ao mesmo tempo, e isto é muito curioso, o que fica é um filme sobre o confronto com um “homem-imagem”, uma criatura que existe “de” e “pelas” imagens de televisão.
Enfim, não estamos longe de um dispositivo clássico de ficção científica, série B: o “vilão” é alguém que só se contata através de telões montados na sala de controle na nave espacial dos heróis, ou seja, o estúdio-cápsula da CBS de onde o filme não sai.

Hamilton Rosa Jr. - Jornalista e Crítico de Cinema, Filmes Nacionais e Estrangeiros, DVDs, Blu-Ray, HD-TV, Entretenimento, Cults, Preview, Estréias, Mostra, Festival.

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