O palhaço está morto?

Cortesia: www.cinelog.com.br

O diretor Ruben Fleischer tem a sensibilidade de um garotão ligado em videogame, com certeza, mas o humor e o sentimento de seus personagens parecem tirados de um filme da nouvelle vague. As duas mocinhas do filme (Emma Stone e Abigail Breslin) sobrevivem a caçada dos zumbis porque aprenderam a viver de pequenos golpes nas estradas. O garoto (Jesse Eisenberg) parece um Antoine Doinel inquieto em sua reclusão. Em vez de cinema, suas orientações são comandadas por joystick. E ele constantemente faz referências às regras de sobrevivência que ele próprio criou para fugir dos mortos-vivos. O quarto elemento do grupo é um caipirão red neck (Woody Harrelson) que parece saído do clássico “Amargo Pesadelo”.Tem uma sequência que inclusive ele toca banjo como no antigo filme, só que depois usa o instrumento para uma sequência de comédia pastelão (bem sanguinária) num supermercado.
Muito bem. Eles são apresentados um a um cerimonialmente como se estivessem num filme de Sergio Leone e quando se reúnem o primeiro lugar que imaginam visitar, depois do apocalipse, é Hollywood.
Melhor que isso, decidem passar a noite na mansão de algum astro do cinema, enquanto um palhaço zumbi segue suas pegadas.
E advinhem a casa de quem eles escolhem para se esconder?
De um outro palhaço do cinema, Bill Murray.
De todo o material imaginável para tela, nenhum expressão se casa melhor ao espírito deste Zumbilândia que a do rosto de Bill Murray. E
diga-se de passagem ele habita o pedaço como morto-vivo! Ou é o que inicialmente parece (não cabe contar o desenvolvimento da sequência, porque é uma das mais impagáveis do filme).
A comédia é situacional, calcada na posição “peixe fora d′água” em que os personagens se encontram e feita com irrepreensível savoir faire. Os criadores têm plena consciência das possibilidades da simples premissa: normalidade…com zumbis.
Será que é possível viver ao lado destes entes carnívoros?
De um lado, os zumbis brigam, se desentendem e se desnorteiam. Do outro, os heróis se estressam, se atrapalham e gritam uns com os outros como se estivessem numa comédia dos Três Patetas.
É fracasso pra todos os lados. Mas ninguém perde o bom humor e certa excentricidade, principalmente se aparece um parque de diversões para todo mundo se resfolegar.
É bem incomum para um filme de horror. O diretor observa os fracassos da vida sem desprezar as pessoas, compreende que elas próprias já se desprezam.
Há uma decência - quase uma ternura - com os vencidos aqui. E prazer, um imenso prazer do diretor com seu quarteto de errantes, e com a vontade de contar uma história.

Hamilton Rosa Jr. - Jornalista e Crítico de Cinema, Filmes Nacionais e Estrangeiros, DVDs, Blu-Ray, HD-TV, Entretenimento, Cults, Preview, Estréias, Mostra, Festival.

One Response to “O palhaço está morto?”

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