Invictus ou o campo dos sonhos de Clint e Mandela

Cortesia:www.cinelog.com.br

“Invictus” tinha tudo para ser um filme programado mecanicamente para dar certo. A história da chegada espetacular de Nelson Mandela, que ficou preso 27 anos como inimigo público número 1 do estado, para em seguida chacoalhar o país e se tornar presidente, tem cara daqueles épicos redentores do passado. Mas o projeto de Clint Eastwood sutilmente se atreve a mostrar o depois disso. A dificuldade de Mandela de unir duas classes, a minoria afrikaners (filhos brancos de colonos europeus) e a maioria negra, que não pareciam ver qualquer denominador comum para a reconstrução da África do Sul. Bem como driblar as pressões que surgiam no gabinete e no partido e que ameaçavam explodir a qualquer instante.
Mandela (Morgan Freeman, no filme) não tem sossego nem dentro de casa. A filha o ridiculariza por apertar as mãos do jogador louro François Pienaar (Matt Damon), porque ele parece um sósia do capitão do exército que queimou o lar da família no passado. O homem, aliás, sequer consegue fazer um passeio em paz. Os seguranças negros desconfiam dos seguranças brancos e o mal-estar só diminui quando os homens discutem sobre a campanha do time de rúgbi local.
É, aliás, esse pequena desavença de torcidas, que leva o político a freqüentar cada vez mais os jogos do time de Springboks. De um lado, os políticos não compreendem o repentino fervor esportivo de Mandela, de outro, a maioria negra fica surpresa de ver o seu líder vibrar com um time louro, branco, que se ergueu no passado como símbolo do apartheid.
O filme gradativamente desenha o modo como Mandela usa a modalidade esportiva como improvável traço de união de uma nação em recobro das feridas. Há até um tom triunfalista na forma como a trama se encaminha para mostrar as barreiras do preconceito sendo derrubados. Muitos vão achar que o filme tem uma qualidade desigual. Existe,de fato, um desejo velado por enaltecer a presidência de Barack Obama (com o qual o Mandela de Freeman, procurando reunificar um país dividido, tem muito em comum). Mas não parece ser isso que atrai Eastwood nesta história.
O que é mais contundente neste “Invictus” é uma certa ideia de gravidade moral a ser defendida, tema que aliás, percorre muito do cinema deste velho mestre. A imagem clássica do homem que coloca o seu país e o seu ideal à frente de si próprio. Mandela/Freeman parece o último porta-estandarte da ética humana – e ele pretende melhorar as pessoas, por mais ingênua que a circunstância pareça.
Mas há uma candura da respectiva formulação que está longe de apagar a sua importância simbólica. Com certeza tem algo a ver com sonhos, com ilusões, que não se desvanecem. E com pessoas cheias de falhas, dúvidas, gente feita de carne e osso que triunfa momentaneamente, para depois voltar a sua condição anônima no meio da multidão.
Em alguns momentos me lembrou o cinema de John Ford.
Enfim, Clint Eastwood preserva os valores românticos de Hollywood com a elegância que lhe é peculiar. Sem melação.
Continua sóbrio, enxuto e singular.

Hamilton Rosa Jr. - Jornalista e Crítico de Cinema, Filmes Nacionais e Estrangeiros, DVDs, Blu-Ray, HD-TV, Entretenimento, Cults, Preview, Estréias, Mostra, Festival.

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