O dia em que Brad Pitt e Edward Norton trocaram tapas de amor

Cortesia: www.cinelog.com.br

Não parece provável que um filme que apresenta repetidas cenas de homens levando surras possa funcionar em tantos níveis, mas funciona: emocionalmente, fisicamente, visceralmente.
Da primeira vez que vi achei o filme bem reaça. Mas Clube da Luta está fazendo dez anos, tenho amigos que consideram o trabalho de Fincher  “o” filme de cabeceira, e não sou eu que devo estragar o prazer de ninguém com um comentário redutor.
Em glorioso blu-ray agora me divirto em ver que por trás de sua grande concepção, de seus enigmas, das brincadeiras pesadas, farras e bravatas, Fincher vende muito bem uma postura, que,olha só, parece que não envelhece. Uma defesa  aos valores niilistas, com cada detalhe prejudicial no lugar certo.
Diversidade, democracia, solidariedade?
O filme parte da ideia de que o público teme e odeia essas coisas muito complicadas. Melhor dar um basta. Melhor é fazer uma faxina em tudo com o sabonete que o personagem de Brad Pitt oferece.
Fincher quer dar uma chacoalhada nos sentidos, na apatia.
Aliás,chamar o narrador anônimo e protagonista (Edward Norton) de insone seria fazer uma caridade. Esse cara é um autômato de dia e um zumbi de noite. Ele dá duro num trabalho bem pago, mas chato e moralmente questionável, depois segue para seu apartamento, repleto do máximo de mercadorias ao estilo yuppie que ele pode comprar (esse deve ser o primeiro filme no qual um sujeito fica excitado com um catálogo da fabricante de móveis Ikea). Aí ele fica acordado, num estado catatônico provocado pelo tédio, traumatizado demais até para trocar o canal que só apresenta comerciais em sua moderna TV.
Então eis que o herói está tão desesperado por contato em seu mundo de alheamento que começa a freqüentar diversos tipos de grupos de apoio, onde as ligações se fazem automaticamente, e puxa conversa com estranhos em aviões. É num avião que ele conhece Tyler Durden (Brad Pitt), um vendedor de sabonete que, aparentemente, não usa o produto que vende e tem algumas idéias interessantes sobre o que está certo e errado com a sociedade. Esse cara vai virar sua sombra.
E Norton também vai arrumar uma namorada (Helena Bonham Carter) num grupo de apoio a sobreviventes de câncer nos testículos. Pitt o levará à beira do abismo, e Helena, claro, o impedirá de pular.
No entanto, é Tyler que ajuda o narrador a apagar um pouco de sua alienação, criando junto com ele o tal Clube, no qual homens com empregos inexpressivos e subalternos assumem o controle de suas vidas organizando lutas sem luvas nas quais se batem como bestas. O objetivo não é exatamente vencer, mas sentir, porque a dor supera o adormecimento que vivenciamos todo dia. É interessante, mesmo quando eles estão perdendo, estão sob controle, porque uma das regras do Clube é que quando alguém pede para parar, a luta pára.
No papel tudo parece bonito. Mas no ringue e com a adrenalina a mil, às vezes não funciona. Tyler, em particular, não sabe quando parar. E ele vira um modelo a seguir. Cria um grupo secreto e começa a travar uma guerra maior contra nossa cultura.
O inimigo do Clube não é o governo, são as corporações, que tudo controlam.
Analisado somente em termos cinematográficos, “Clube da Luta” é um primor de encenação. O diretor David Fincher, que nos deu a desolação chuvosa de “Seven”, a paranóia modernosa de “Zodiaco”, o lirismo comedido de “O Curioso Mundo de Benjamim Button” continua a mostrar sua habilidade para criar outros mundos que existem dentro do nosso. Norton, o narrador (que já usou tantos apelidos que acabou esquecendo seu próprio nome), tem uma interpretação corajosa  - uma combinação de ligado e fatigado, preguiçoso e danado, catalisador e consciente, sem exceder  na dose em qualquer uma delas.
Como Tyler, Pitt também mergulha fundo. Está tão elétrico, como se tivesse armazenado energia enquanto dormiu durante seus papéis insossos em “Sete Anos no Tibete” e “Encontro Marcado”. Helena Bonham Carter, como Marla, finalmente consegue dar conta de um papel contemporâneo, com uma interpretação dura, triste, que depois a ajudaria a escapar da armadilha dos filmes de época, nos quais sempre caia. Verdade que atualmente ela não consegue habitar outro mundo que seja o dos filmes de Tim Burton (mas essa já é outra história).
É quando sua consciência entra no filme que “Clube da Luta” fica problemático. Apesar de acreditar que a arte reflete a violência da sociedade e não vice-versa, fico questionando o quanto esse filme imita a vida. Mas é preciso ser quase míope para não ver que as coisas ficam piores para o personagem de Norton no transcorrer da ação.
Sem dúvida, existem pessoas que vêem o filme somente pela ação e não pelo que ele tem a dizer. E, é claro, ele continua a inspirar reações fortes; já foi condenado como uma apologia do fascismo, apesar de que amigos continuam a me dizer que ele igualmente, pode ser visto como uma sátira a ele.
Hum, é interessante que os homens de “Clube da Luta” sejam em sua quase totalidade, brancos - e não muito espertos -  e que um dos poucos sujeitos no filme que não se deixa enganar é o detetive negro, que está tentando descobrir porque o prédio do narrador explodiu.
OK, a percepção seletiva é algo poderoso, e as pessoas tendem a tirar o que querem dos filmes.
“Clube da Luta” foi cautelosamente planejado para esse tipo de visão; é um filme tão abarrotado de idéias que usa os dois cantos de sua boca para expressá-las. Também é um filme de machões que se transforma numa história de amor entre homens (é engraçado ver Pitt e Norton brigando sobre o modo de dirigir de Pitt em uma cena) - é sobre “florzinhas” que se tornam durões ao encherem uns aos outros de porrada. Um filme que usa uma mulher para ajudar o herói voltar a entrar em contato consigo mesmo, mas que a ignora até que precisa chamá-la do banco de reservas. Um filme que ri de nós por vestirmos roupas de grife, e depois joga outros tipos de merchandising bem na nossa cara. Um filme anticonsumista realizado por um sujeito que fez seu nome com um vídeo musical de Madonna.
E finalmente é um filme anticorporações feito por um estúdio cujo dono é Rupert Murdoch.
É claro, que Fincher é um sujeito inteligente e tenta escapar ileso de todas essas pequenas implicações, usando como arma uma fina ironia.
Só se esqueceram de dizer a ele que não adianta as piadas serem engraçadas no meio. Elas precisam de um bom arremate final. E depois de duas horas mostrando que bater no mundo coorporativo é uma questão de atitude, de postura, de ser “muderno”, fico doido de vontade de sair à rua, gritar e ser rebelde do jeitinho que Fincher ensina.
Trajando roupas da Diesel e usando um solar Tom Ford.

Hamilton Rosa Jr. - Jornalista e Crítico de Cinema, Filmes Nacionais e Estrangeiros, DVDs, Blu-Ray, HD-TV, Entretenimento, Cults, Preview, Estréias, Mostra, Festival.

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