Bastardos chegam às locadoras e a tela pega fogo – Parte 2

Cortesia: www.cinelog.com.br

De fato, a Segunda Guerra Mundial de Quentin Tarantino não é bem a que conhecemos. Ou é a que conhecemos mas com uma significativa variação, um “twist” suficiente para a lançar numa espécie de universo alternativo. Na cena crucial de “Bastardos Inglórios”, quando as pilhas de rolos de película de nitrato pegam fogo e queimam 350 figuras importantes do estado-maior do Terceiro Reich, torna-se claro que Tarantino não reconstitui. Ele reinventa e seu filme é um divertido exercício de história alternativa.
Não necessariamente implausível nos seus pormenores: porque afinal é verdade que a película de nitrato tem alta combustão (é famoso o caso de incêndio na RKO nos anos 50) e é verdade também que o alto escalão nazista   gostava muito de assistir a estreias de gala dos seus filmes de propaganda.
O resto, bom, vamos chamar de licença poética.
Um dado óbvio, mas que Tarantino usa e abusa em cena é a questão dos figurinos. Todo mundo usa farda no filme. Mas se existe uma coisa que tira o mercenário Aldo Apache (vivido por Brad Pitt) do sério é como as pessoas fazem o troca a troca de identidades sem pestanejar. E como a guerra está acabando, Aldo se toca que vai ficar difícil distinguir quem é o inimigo na hora que todo mundo voltar a ser civil. Já pensou se Hitler raspa o bigode e tinge o cabelo de louro?
E o filme segue neste jogo de disfarces até chegar ao cúmulo de vermos um bando de espiões e nazistas num boteco, comendo chucrute, bebendo cerveja e discutindo suas predileções entre diretores de Hollywood e diretores do cinema alemão.
Referências ao cinema, derivações, plágios, “homenagens”, a alegria de Tarantino de jogar tudo no liquidificador e bater é estridente. Veja só: a missão de Aldo Apache é uma referência a “Os Doze Condenados”, de Robert Aldrich, que por sua vez mais ou menos derivou nos “Bastardos Inglórios” que o diretor italiano Enzo Castelari dirigiu nos anos 70, filme ao qual Tarantino toma sua inspiração, recicla, reinventa. Regado por meia dúzia de baldes de sangue artificial.
Aldo é designado para montar um grupo mercenário mais temível, que qualquer bando psicótico nazista. E a idéia é fazer os soldados alemães ficarem com medo das atrocidades que essa turma de párias norte-americanos comete. Arrancar escalpos não é o pior que os bastardos armam, e sim marcar os oficiais com a suástica na testa. Assim Aldo resolve seus problemas, porque nem tirando a farda, o inimigo conseguirá se esconder.
Paralelo a isso, existe uma história “lírica”; a da judia (Melanie Laurent) que se refugia como gerente de um cinema em Paris, o mesmo cinema que será escolhido pelo Ministro da Propaganda Nazista para uma avant-premiere com a presença do Fuhrer.
Tarantino orquestra para que os destinos da gerente do cinema e dos bastardos se encontrem, e o desafio é não escorregar no sangue, depois do primeiro disparo. Aliás, há momentos em que fica difícil saber até quem está do lado de quem. E no jogo de máscaras, há toda uma sequência de patetadas muito pouco convincente para quem procura realismo ou fidelidade histórica num filme de guerra.
Contra toda a expectativa da moda, que parece atualmente mais favorável ao realismo, “Bastardos Inglórios” busca o inacreditável, o improvável, o nonsense, para reascender nossa paixão pela magia do cinema nem que seja se valendo de um bando de párias como heróis.

Hamilton Rosa Jr. - Jornalista e Crítico de Cinema, Filmes Nacionais e Estrangeiros, DVDs, Blu-Ray, HD-TV, Entretenimento, Cults, Preview, Estréias, Mostra, Festival.

One Response to “Bastardos chegam às locadoras e a tela pega fogo – Parte 2”

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