Mulheres e carrões à prova de morte

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Para os que só viram na miúda, vocês não imaginam o que é ser contemplado com a visão de “À Prova de Morte” em tela grande. Vi numa sessão concorrida na Mostra Internacional de São Paulo há quatro anos e cai na besteira de rever uma parte da versão genérica que anda circulando pela web. Digo uma parte, porque não tive paciência de acompanhar nestas condições. São dois filmes diferentes. A ênfase de Tarantino pelas superfícies se perde um bocado em tela pequena. Sua câmera desliza sob pernas e pés femininos com uma volúpia sem igual. E é preciso ter essa experiência no obsceno escurinho do cinema, pra evitar constrangimentos!
Isso mesmo, porque “À Prova de Morte” parece que foi feito por um diretor de cinema B daqueles bem sórdidos. Doente de amor pelas mulheres e doente de amor pelos carros. Veja só: Tarantino abre sua trama com o ronco de um V-8 e com os pés de uma mocinha no painel de um mustang. Em paralelo, vemos uma belezura desfilando de calcinha pelo apartamento. Uma terceira aparece descendo do carro e correndo, apertada pra fazer xixi. É o mundo das mulheres segundo Tarantino. Um mundo em que elas exercem a liberdade para ficar a vontade. É o paraíso. E é claro, que nem todo mundo pensa assim. Enquanto, o trio de mocinhas saem pra balada e discutem quem tem o traseiro mais vistoso - a mulata Julia ou a latina Arlene - um carro sinistro segue o rastro das moçoilas pela noite.

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As Dicas de DVDs da semana – Edição 105

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Alice no País das Maravilhas (Buena Vista)
Essa Alice podia ter mais daquela bizarrice que Tim Burton nos acostumou, como em “Sweeney Todd” e “Edward Mãos de Tesoura”. Ainda assim não decepciona. A Alice aqui não é mais uma criança, fez 19 anos, e está prestes a ficar noiva de um sujeito muito comportado. Mas ela não suporta o rigor e protocolos da nobreza inglesa. Homens e mulheres comportam-se como se fossem peças num jogo de xadrez. Assim quando o coelho Atrazildo a convida para segui-lo, ela não vacila. Cai mais uma vez naquele reino maravilhoso da infância, onde gatos falam e cartas andam.
A Disney moveu mundos e fundos para Burton delirar e de fato, os figurinos são magníficos, os cenários são suntuosos, e tudo é tão grandiloqüente, que o diretor pára a ação umas duas ou três vezes para nos mostrar a riqueza e os valores em jogo. Será que era pra tanto? Mas o filme tem suas compensações. E a maior delas talvez seja puxar nossa atenção para o Chapeleiro Louco. Ele  aparece como o mais incompreendido entre os homens. Pede silêncio para ouvirmos a voz da Lua, e seja você um adulto ou uma criança, é difícil resistir ao manifesto desse doido. Por fim, a aventura toda vira uma embriagada homenagem a nosso desejo de quebrar todas as regras. Nem que seja por apenas duas horas.

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Tarantino põe seus cachorros para brigar em Blu-Ray

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E a briga é saborosa, porque começa na mesa de um boteco. Sete bandidos estão prestes a assaltar uma joalheria, mas parecem menos preocupados com o trabalho do que com o significado que Madonna dá ao cantar “Like a Virgin”.
Cada um quer dar uma interpretação mais grosseira a virgem da canção, mas Mr. Brown (pequena participação de Tarantino) fecha o raciocínio na medida: “Vejam, o parceiro quando transa com ela a machuca. Não deveria doer, pois ela já transou muito. Mas quando este cara vem pra cima dela, dói. Dói tanto quanto doeu na primeira vez. A dor a faz lembrar de quando era virgem. Por isso, “Like a Virgin”.
Pois bem, o trocadilho é infame, mas eu não resisto: “Cães de Aluguel” perde a virgindade agora em Blu-Ray no Brasil, e vem sendo comercializado também com um preço virginal: R$ 29,90.
Será um novo paradigma para o mercado?
A questão deixo suspensa no ar para especialistas, futurologistas e afins se divertirem.
Mais importante para mim é que o filme toca em Blu-Ray numa cópia boa e com um áudio surpreendente.

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As Dicas de DVDs da semana – Edição 104

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O Fim da Escuridão (Imagem Filmes)
Fazia oito anos (desde “Sinais”, de M. Night Shyamalan, de 2002) que Mel Gibson não aparecia no papel principal de um longa-metragem, o que é uma eternidade na Hollywood contemporânea, mesmo descontando que o ator/realizador não esteve ausente (ele dirigiu “A Paixão de Cristo”, 2004, e “Apocalypto”, 2006). Há, por isso, dois suspiros de alívio em ver Gibson neste Fim da Escuridão. Primeiro, Gibson, hoje com 54 anos, assume as rugas, o que cai bem quer no tom do filme quer na sua personagem de detetive da polícia de Boston que carrega as marcas do tempo. Segundo, o Gibson-ator não perdeu nada daquela loucura suicida que o tornou um dos mais badalados astros dos anos 1990.
E o intrigante é que logo na primeira cena vemos essa dicotomia – o homem tenta reagir quando um bando inesperadamente invade sua casa e mata a filha na sua frente, mas ele está velho, cansado, parece uma ruína vencida. Então ele averigua o passado da filha e, bom, percebe que a visão paterna não reproduz o que o filho realmente é ou faz. E então o velho Gibson vira um bicho.
Com a filha não dá para tirar satisfação, mas ele invade o escritório de um político poderoso implicado no crime, e diz nacara do sujeito que sua vingança será medieval.
Será que o velhinho aguenta?
Tenho que confessar que fiquei muito estimulado por essa questão, e acho que o diretor Martin Campbell devia segurar essa dúvida por algum tempo, o que tornaria o suspense mais intrigante.
Mas disparos de escopeta a seguir demonstram que os bandidos calcularam mal e que o Gibson continua o fodão da bala chita. O sujeito é mal, enfrenta os bandidos em tiroteios e não está nem aí se no meio existe gente inocente passando. Ele atira pra no mínimo aleijar.
A certa altura comecei a torcer pros seqüestradores, afinal, a gente sempre se simpatiza pelos mais fracos e, na briga com Gibson, eles não parecem levar nenhuma vantagem. Só podem correr mesmo.
Eu não contarei o final. Mas mesmo se eu contasse, não seria o fim do mundo, já que o destino deste “O Fim da Escuridão” entre os fãs de ação parece assegurado como aconteceu no ótimo “Cassino Royale”, outro filme movimentado feito pela mesma equipe deste aqui. A  edição é meticulosa, encadeada no melhor estilo “piscou, perdeu”. E o diretor Campbell tem o dom incomum de encontrar um drama humano entre todas as explosões, perseguições e colisões.
Numa altura em que a maior parte da produção americana parece estar mais atenta ao marketing do que ao conteúdo, isso já é bem positivo.

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Kick Ass ou quando os super-heróis viram borrão de tinta

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Taí um filme de super-heróis para espinafrar com todos os super-heróis.
O mocinho aqui é um nerd com uma ótima cara de pateta (Aaron Johnson), que num belo dia decide comprar, via web, um bizarro traje de mergulhador verde e amarelo e sair pela rua para proteger os fracos e oprimidos. Ah, mas antes ele precisa de um nome: que tal Kick Ass? (em respeito a molecada de 10 anos que lê o CINELOG vou traduzir como “Pé no Traseiro”). Kick intimida o primeiro malandro de rua e leva um tapão na orelha, tenta uma segunda vez, e sai com um olho roxo, na terceira, cresce pra cima de uma quadrilha e vai parar no hospital.
Acontece que a última surra é filmada por uma testemunha e postada no You Tube e ganha as rede sociais. Resultado: a coragem do rapaz comove todo mundo, e ele vira realmente um herói. Aliás, não é o único, porque a moda pega e um monte de gente começa a tirar as fantasias do armário e quer fazer justiça.
O diretor britânico Matthew Vaughn pega esse mote (tirado de um HQ escrita por Mark Millar e John Romita) e desconstrói, ou melhor, borra o conceito de supers com singular prazer.

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As Dicas de DVDs da semana – Edição 103

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O Lobisomem (Universal)
A moda agora é protagonista virar bicho, vampiro, lobisomem, mutante ou saci pererê. E esse Lobisomem, estrelado por Benicio Del Toro é vistoso em quase todos os quesitos. A produção é suntuosa, a ação não pára, e quando os personagens viram os tais lobos, transformam-se diante da câmera: vemos todos os estágios – criando pêlos e presas, o peito expandindo-se – apele rasgando e projetando o focinho do rosto, como uma locomotiva.
Acontece que nem sempre os valores de produção e os efeitos são tudo num filme. E o diretor Joe Johntson, que demonstrou desenvoltura para lidar com monstros em Jurassic Park 3, infelizmente não investe naquela pegada de parque de diversões que convenhamos um filme de bicho papão pede. A história podia ter um pouco de humor. Todo mundo em cena carrega na seriedade, e Anthony Hopkins e Benício Del Toro exageram no confronto entre pai-desalmado e filho rejeitado.
Passando a régua neste entrecho, o ataque do Lobisomem na aldeia dos ciganos tem um clima soturno, e a fuga do Lobisomem pelos tetos de uma Londres do século 19 paga o valor da locação.
Dá pra esquentar uma noite de frio.

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Cesta de café da manhã! Flores! Cinema!

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Não adianta sapatear, o romantismo do Dia dos Namorados está em todo lugar hoje, inclusive nos cinemas com duas estréias na medida para a mulherada: “Cartas para Julieta” pode não levar os marmanjos para a Copa, cujos jogos acontecem sempre à tarde na hora do trabalho, mas leva a espectadora romântica e sonhadora a terra de Romeu e Julieta, Verona. “Plano B” assume como ambiente a Nova York atual e chique das mulheres independentes  e bem sucedidas em quase tudo na vida. E nos dois filmes, o divertido é ver as duas heroínas, modernas, controladoras, caindo na velha e kitsch armadilha da comédia romântica.
 
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As Dicas de DVDs da semana – Edição 102

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Invictus (Warner)
As vésperas do começo da Copa e de todo o fervor fanático e populista que isso vai gerar nas próximas semanas, está aqui um filme que diz duas ou três coisas a mais sobre o mito esportivo e a torcida que ele agrupa. Aliás, por trás de Invictus tem um time campeão: Clint Eastwood dirige, Morgan Freeman interpreta o papel do líder político Nelson Mandela, Matt Damon faz o jogador branco François Pienaar. E o filme mostra a incrível sinuca de bico política em que Nelson Mandela se envolveu na África do sul, após derrubar o regime apartheid e ser eleito o primeiro presidente negro do país. A população branca continuava a controlar a polícia, o exército e a economia, enquanto, fora do país, a opinião pública achava que Mandela tinha pirado, porque só queria saber de torcer pelo time de rúgbi.
Como?
Havia tantos problemas: falta de habitação, comida, desemprego, desvalorização da moeda e o cara se refugiava no esporte.
A verdade é que Mandela era um estrategista, percebeu que não podia reerguer o país sem derrubar as fronteiras do racismo. E é muito perspicaz ver como ele manipula os anseios com o esporte para unir a nação.
Mais que o jogo de cintura político, Eastwood prega uma certa ideia de gravidade moral a ser defendida, tema que aliás, percorre muito do cinema deste velho mestre. A imagem clássica do homem que coloca o seu país e o seu ideal à frente de si próprio. Mandela/Freeman parece o último porta-estandarte da ética humana – e ele pretende melhorar as pessoas, por mais ingênua que a circunstância pareça.
Mas há uma candura da respectiva formulação que está longe de apagar a sua importância simbólica. Com certeza tem algo a ver com sonhos, com ilusões, que não se desvanecem. E com pessoas cheias de falhas, dúvidas, gente feita de carne e osso que triunfa momentaneamente, para depois voltar a sua condição anônima no meio da multidão.
Em alguns momentos me lembrou o cinema de John Ford.
Enfim, Clint Eastwood preserva os valores românticos de Hollywood com a elegância que lhe é peculiar. Sem melação.
Invictus é sóbrio, enxuto e singular.

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Príncipe da Pérsia pula mais alto que uma pulga na Lua

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O Príncipe da Pérsia é um herói de videogame que toda a molecada conhece. E neste “As Areias do Tempo”, Jake Gyllenhaal treinou como doido para aumentar o bíceps, ficar em forma, e correr literalmente pelas paredes. Seu personagem é um Aladdin pos-moderno, Dastan, o menino ladrão, adotado pelo rei da Pérsia. Ou seja a criança pobretona pode herdar parte do império, e os ciumentos familiares legítimos nunca vão perdoar o patriarca por isso. Acontece que Dastan fica adulto (é aqui que ele vira o Jake), quer mostrar gratidão ao pai, mas aí o tio vil (vivido por Ben Kinglsey), arma uma cilada para Dastan, que é acusado de assassinar o rei, e o filme se encaminha mais ou menos como a história de O Rei Leão.
Temos todos os perigos e miragens do deserto. De cobra naja a tuaregues que matam sem perguntar. E Gyllenhaal foge dos perigos como se fosse um campeão do Parkour. Aliás, nem em O Tigre e o Dragão vi herói mais saltitante e voador.
Gyllenhaal está no mundo das Mil e uma Noites, mas dispensa o tapete mágico.

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Polanski e suas prisões

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Com esse “O Escritor Fantasma”, Polanski recupera uma ironia diabólica que parecia menos vigorosa em seus últimos filmes. Estamos aqui mais próximo de “Bebê de Rosemary”, “Chinatown”, e do maravilhoso “A Faca Na Água”, do que de “O Pianista”. Apesar do herói ser vivido por Ewan McGregor, seu personagem é um João Ninguém, um escritor de terceira linha, daqueles que sequer ficamos sabendo o nome. Mas ele é convidado pelo ex-primeiro ministro da Inglaterra (Pierce Brosnan) para retomar a biografia que um outro estava finalizando antes de aparecer boiando morto na praia.
O humor de Polanski é invejável. O ex-governante cerca o João Ninguém de regalias e muito dinheiro, apenas para “embelezar” fatos de uma vida política suja, mas aos poucos o escritor se envolve num redemoinho de fatos e pessoas que o deixam paranóico.
Mais do que isso: o tal político se isola em seu bunker com seus assessores e família, e o escritor é encerrado junto dentro deste mundo, claustrofóbico como uma prisão. Mas uma prisão de vidro.
A arquitetura do lugar é magistral. De qualquer cômodo você tem vista pra fora. Assim como, podemos pensar numa inversão: de qualquer parte de fora, você também pode ser vigiado.
Essa é a ironia dentro do filme, mas existe um humor cortante de bastidores também. Polanski parece estar rindo de si próprio. Ele, que já está a quase nove meses preso na Suíça, esperando sua extradição para os EUA, pelo crime de estupro nos anos 70, está procurando uma saída há mais de 30 anos. Mas só lhe mostram um único caminho.

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